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Democracia Política e novo Reformismo


DEU EM O GLOBO

A APOSTA

Merval Pereira

A chefe da Casa Civil, ministra Dilma Rousseff, pode não vir a ser a candidata do PT à sucessão de Lula, mas, ao contrário de uma "metamorfose ambulante", ela tem opinião formada sobre tudo, desde como deveria ser a próxima campanha presidencial até como deveriam evoluir as relações entre o PT e o PSDB no futuro. Ela acha, por exemplo, que qualquer aproximação, como a sugerida pelo governador de Minas, Aécio Neves, só pode ser apoiada em programas de governo, o que implica dizer que dificilmente um eventual acordo poderia gerar uma candidatura única em 2010. Essa hipótese poderia ocorrer em Minas, diz ela, por causa de questões locais, mas provavelmente não haverá clima político para, já na próxima eleição, PT e PSDB estarem unidos em torno de um nome, pelo menos no primeiro turno.

A senadora Ideli Salvatti, que também participava da conversa, vai mais longe e não acredita que Aécio Neves tenha condições de ser o candidato tucano na sucessão de Lula: "Ele será serrado em pleno vôo", brinca Ideli, se referindo à maior força política do governador de São Paulo, José Serra, na estrutura partidária do PSDB.

Com Serra ou Aécio, Dilma torce por uma campanha eleitoral "sem rancores". Serra seria mais próximo ideologicamente do PT, e Aécio teria uma maneira de fazer política que visa ao entendimento.

Mas tanto Dilma quanto Ideli não vêem disposição dos líderes do PSDB em se aproximar do PT, pela expectativa de poder real que detém, e pela necessidade de marcarem uma posição de confronto: "Na votação da CPMF ficou claro: os governadores e boa parte das bancadas faziam um acordo de madrugada e no dia seguinte o Fernando Henrique e o Bornhausen quebravam o acordo", diz Ideli.

Embora haja um consenso, pelo menos na parte petista que a ministra e a senadora conhecem, de que seria bom para o país um acordo entre as duas forças partidárias que polarizam nossa vida política há quase 20 anos, há também a sensação de que ainda não amadureceram as condições para que isso aconteça, apesar dos avanços mineiros. "Se conseguíssemos fazer uma campanha eleitoral de alto nível, já seria um grande ganho", devaneia Dilma Rousseff.

Na sua avaliação, os políticos de maneira geral não estão atuando à altura do momento que o país vive: "Acho que estamos numa situação econômica e social como há muito não vivíamos", diz ela, e os políticos deveriam pautar suas ações por um entendimento do que é melhor para o país, "independentemente dos interesses partidários".

Ela admite que o PT na oposição foi radical e levava em conta mais os interesses políticos, como agora reclama da oposição. Mas tem uma explicação e uma certeza: "Nós não tínhamos experiência de governo e nunca mais seremos uma oposição como fomos".

O que Dilma cobra é que um partido que já esteve à frente do governo federal, como o PSDB, não deveria se comportar com o radicalismo do "antigo PT", porque de outro modo "isso não terá fim, e é ruim para o país". Como dizia Engels, e não Marx, pontifica a ministra, "a repetição se transforma em farsa".

Ela diz ter esperança de que, superada a campanha eleitoral sem radicalizações, PT e PSDB possam encontrar alguns pontos comuns num futuro programa de governo. Talvez sem lembrar que o próprio ex-presidente Fernando Henrique Cardoso disse isso em seu livro de memórias, Dilma diz que com a transição "tão civilizada" do poder para Lula, em 2003, ela pensou que se abriria um caminho para uma negociação entre os dois partidos.

Fernando Henrique escreveu que esperava que Lula chamasse o PSDB para um governo de união nacional. E Lula tem dito em diversas ocasiões que o que Fernando Henrique queria mesmo é que seu governo fracassasse e que ele tivesse que pedir ajuda aos tucanos para se salvar.

Apesar disso, houve momentos nos primeiros anos do governo Lula, antes do escândalo do mensalão, em que o próprio Lula antecipou o desejo de procurar o PSDB para um acordo, mas nunca se criou um clima propício para tal passo. Para a ministra Dilma, houve uma "desqualificação" do debate político no decorrer do tempo que impediu essa aproximação.

A senadora Ideli Salvatti parece menos entusiasmada do que a ministra com a aproximação com o PSDB, avaliando que a disputa de poder, especialmente em São Paulo, impede a realização desse projeto.

Ela admite que sua análise é influenciada pela situação do Senado, onde ela diz que o PSDB atua "a reboque dos Democratas": "É claro que o PT e o PSDB têm muito mais pontos em comum do que com os Democratas. Mas os interesses eleitorais aproximam os tucanos do DEM. E nos jogam nos braços dos outros partidos".

O caráter ideológico do PT também seria um empecilho a uma aliança política com os demais partidos da base do governo, o que não impede que Lula trabalhe para fortalecer esses laços em busca de um candidato potencial que possa unir os partidos da base. Se encontrar um nome do PT que seja palatável pelo PMDB, hoje o seu principal sustentáculo político, seria a solução ideal.

Dilma Rousseff é sua primeira e maior aposta. Oriunda do PDT, ela tem, primeiro, que se impor dentro do PT, para depois tentar atrair a base aliada.

A disputa com o PMDB em torno dos postos-chaves do Ministério das Minas e Energia desgastou seu relacionamento com o principal pólo de poder político do partido, o senador José Sarney, mas a reaproximação está sendo feita. É o primeiro teste real para uma possível candidatura.

 

 



Escrito por gilvan.cavalcantidemelo às 10h22
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DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

 

SORO DA VERDADE

Dora Kramer

Ninguém levou muito a sério, mas a oposição fez um lance interessante ao propor que o governo suspenda temporariamente a edição de medidas provisórias - pelo menos no ritmo alucinante com que têm saído do forno do Planalto - para liberar a pauta do Congresso à tramitação, discussão e votação da reforma tributária.


Seria uma boa oportunidade para todos: para o governo, de mostrar que considera a reforma urgente e relevante; para os parlamentares em geral, de azeitar o enferrujado equilíbrio entre os Poderes; para os presidentes da Câmara e do Senado em particular, de pôr em prática o discurso em prol da restrição ao uso de medidas provisórias e da recuperação da prerrogativa do Congresso de conduzir uma agenda fora da lógica do tranca-libera pauta imposta pelo Executivo.

Ambos os Poderes teriam diante de si um fator de melhoria do padrão de convivência entre eles.

Mas nem os autores da proposta deram muito valor a ela. Lançaram a sugestão no ar, o governo rejeitou liminarmente e, se ninguém abraçar a causa, estará perdida o que, em princípio, parece ser uma boa idéia.

Há uma reforma tributária na agenda, mas há também no caminho dessa agenda uma sistemática de governo que pode atrasar indefinidamente a sua aprovação.

É claro que a oposição não recorre ao melhor método quando tenta impor em molde de ultimato aquilo que os parlamentares não conseguem fazer por meio do cumprimento de suas funções.


Não seguem a regra pela qual podem rejeitar quaisquer MPs que não sejam urgentes ou relevantes - segundo o presidente da Câmara, Arlindo Chinaglia, a prática da política torna utópica tal norma - e tampouco tomam uma providência para mudar a situação.

Agora, os presidentes da Câmara e do Senado se dizem empenhados em corrigir distorções, impor limites, mas sabem como políticos experientes e integrantes de partidos governistas que são, das amazônicas dificuldades que o Palácio do Planalto lhes criará.

Por isso, o momento da reforma tributária seria uma oportunidade de entrar num entendimento. No Congresso, a oposição não radicalizaria ao ponto de querer retirar do Executivo o poder de governar como está acostumado - já que essa posição leva a um impasse e não a uma solução - e, no Executivo, o Palácio do Planalto se comprometeria a limitar a edição de medidas provisórias aos casos realmente previstos em lei.

Se a reforma tributária que chega hoje ao Congresso tem, para o governo, a importância aludida nos discursos oficiais, limitar a edição de medidas provisórias é um gesto que responde em parte às dúvidas sobre a sinceridade de propósitos do Executivo.

Quando esteve diante de uma questão que para ele era de importância capital, a aprovação da CPMF, o governo revogou medidas provisórias para liberar a pauta e ainda pediu à Câmara que entrasse em recesso branco por cerca de dois meses a fim de evitar que as MPs em tramitação paralisassem a agenda do Senado.

Poderia agora fazer melhor: reduzir desde já as medidas, de modo a que, quando chegasse o momento das votações da reforma tributária, o espaço estivesse livre para a atividade legislativa.

Mas o Executivo sozinho, por exclusiva iniciativa, não fará isso. Ao Congresso, e principalmente aos seus presidentes, caberia aderir à causa. Mais não seja para responder em parte às dúvidas sobre a sinceridade de seus propósitos.

Tempo e razão

Agora que vai ficando claro a respeito do que falava a Comissão de Ética Pública quando apontou potencial conflito de interesses entre o cargo de ministro e o posto de presidente de partido, o governo faz de conta que não está entendendo o xis da questão.

Em silêncio por dois meses a respeito do ministro do Trabalho, Carlos Lupi, o Planalto, por intermédio de dois ministros, Dilma Rousseff e José Múcio Monteiro, começa a se manifestar. Mas fala só sobre a primeira parte do problema, a superposição de funções.

Ignora que ela já gerou conseqüências que, com o tempo, deram razão à Comissão de Ética Pública. Dilma e Múcio pedem serenidade no exame da existência de conflito de interesses.

Está claro que há, pela quantidade de liberação de verbas, muitas suspeitas de irregularidades, para promoção de cursos a entidades ligadas ao PDT, partido do ministro.

Se ele não fosse presidente de um partido e não tivesse sido posto no ministério exatamente por causa dessa condição, o governo teria muito mais liberdade para lidar com o problema, pois não precisaria se preocupar com as possíveis perdas político-congressuais que terá se tomar alguma atitude contra Lupi.

Mal comparando, se Matilde Ribeiro fosse presidente de partido não teria sido removida da pasta da Igualdade Racial como foi. Com cartão corporativo e tudo. Ela usou de forma irregular comprovadamente R$ 400. Lupi já deu bem mais que isso (R$ 90 milhões) a entidades dirigidas por parentes, correligionários do PDT.

 



Escrito por gilvan.cavalcantidemelo às 10h17
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DEU NO JORNAL DO BRASIL

A ONU, O BRASIL E AS DESIGUALDADES

Mauro Santayana

Mais uma vez o Brasil é submetido ao constrangimento internacional, em conseqüência das desigualdades internas. Segundo relatório do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos, o país é dos cinco mais iníquos do mundo. O documento fala na morte de adolescentes pela violência, e cita o número de 50 milhões de pessoas vivendo na miséria. Em abril próximo, a situação do Brasil será das primeiras sob exame, no balanço do que se faz do desempenho de 192 países, de acordo com as metas estabelecidas para os primeiros lustros do século.

O país devia envergonhar-se dessa situação, mas isso não ocorre. É melhor orgulhar-se das coisas positivas, como o desempenho da economia, a descoberta de novas fontes energéticas, o astronômico crescimento do valor de mercado de empresas públicas, adquiridas por menos de um por cento de seu valor, no governo passado, como é o caso da Companhia Vale do Rio Doce.

É provável que alguns números estejam superados. A situação dos brasileiros mais pobres tem melhorado, pouco ainda, mas de maneira evidente. Não é o melhor caminho subsidiar a vida das pessoas. Há sempre desconforto moral para quem distribui o dinheiro e para quem o recebe. Quando quem distribui é a sociedade inteira, mediante o Estado, esse constrangimento é menor, de um lado e de outro. Há, sem embargo dessa situação incômoda, resultado moral importante. Grande parte dos beneficiados pelo programa Bolsa Família - entre outros processos distributivos - em lugar de se acomodar, sente-se estimulada a participar da vida produtiva e econômica. O fato de contar pelo menos com a certeza de uma refeição diária impele o beneficiado a buscar as outras que faltam.

O colunista se recorda de uma entrevista com o então governador do Piauí, Petrônio Portela, meses antes do golpe militar de 1964. O futuro presidente da Arena era, naquele encontro de governadores de Araxá, uma das personalidades subversivas, posto que apoiava o governo Jango e suas reformas. Não me esqueço de sua forte declaração contra as injustiças sociais, ao dizer-me que "as mocinhas pobres do sertão têm direito a um vestidinho estampado de chita, para ir à missa aos domingos". Quase 50 anos depois, com o intervalo que conhecemos - e que ele ocupou com esperta utilidade - o que queria Portela começa a ocorrer. Os produtores de tecidos e comerciantes de roupas estão aumentando os seus negócios, onde, antes, era comum um dia de nudez na semana, para a lavagem da única vestimenta dos filhos.

O problema da violência urbana é mais complicado, mas se relaciona, de uma ou outra maneira, com a desigualdade social. Não é preciso repetir o que todos sabem, e sabem há mais de 100 anos. A fome e a miséria empurram as pessoas para onde haja mais gente. Ainda no tempo colonial isso era comum, com as hordas de miseráveis caminhando pelas trilhas do sertão em busca do sul e do litoral. Nas grandes migrações européias, os andarilhos colocavam no alto da cabeça ínfima moeda de cobre, amarravam pedaço de corda ao pescoço, como sinal de submissão, e se ofereciam como servos aos senhores feudais. No Brasil, esses brancos e pardos pobres não tinham essa saída, posto que os latifundiários valiam-se dos escravos. Isso explica, entre outros fatores, o surgimento, o apogeu e a destruição de Canudos.

A sociedade brasileira é injusta, soberba, saudosa do escravismo. Nas últimas décadas, até mesmo entre os pobres, vem desaparecendo a solidariedade que os ajudava a suportar o sofrimento. Da classe média, com a exceção de alguns poucos, que se sentem naturalmente constrangidos com a miséria circundante, pouco a dizer. A situação lhe é cômoda, porque possibilita mão-de-obra barata para as tarefas domésticas. Quanto aos empresários, nada melhor do que essa pressão da miséria. Nos últimos 44 anos, a participação dos salários no PIB caiu dramaticamente. Em compensação, a participação da renda de capital cresceu exponencialmente.

O governo atual pode errar - e erra - em muitas decisões administrativas e políticas. Mas é interessante registrar que seus opositores mais exasperados - como esse resquício oligárquico dos mal chamados "democratas" - atacam-no exatamente no que tem feito de melhor. A enraivecida oposição ao programa Territórios da Cidadania, que prevê uma ação coordenada de todos os ministérios para o desenvolvimento acelerado das regiões mais miseráveis do Brasil é um exemplo disso.

Bons foram os outros tempos, em que a cidadania era direito dos bem nascidos, do voto censitário, em que só a renda de cada um conferia o alistamento eleitoral.

 



Categoria: ARTIGOS
Escrito por gilvan.cavalcantidemelo às 10h11
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DEU NA FOLHA DE S. PAULO

 

OBAMA, TOCQUEVILLE E A ILUSÃO AMERICANA

Francisco de Oliveira

Obama, com seu terninho correto que faz par com o tailleur de Hillary Clinton, é tão parecido com sua rival quanto o PT com o PSDB


TOCQUEVILLE ESTÁ entre os mais reputados teóricos da democracia, e seu livro clássico sobre a democracia na América em nada se parece com os tratados enfadonhos e formais sobre a forma de governo inventada pelo gregos da época clássica. Trata-se de investigação sobre os fundamentos, eu diria, sociológicos, da democracia nos EUA; nosso Sérgio Buarque de Holanda fez, com o também clássico "Raízes do Brasil", a explicação de por que a forma democrática é quase inviável em Pindorama.

Mais de um século depois, o belicista Churchill cunhou outro paradoxo, plagiando Tocqueville: a democracia é o pior de todos os regimes, salvo todos os outros. O velho leão britânico somente aprenderia a não incentivar guerras coloniais -"remember" a Guerra dos Bôeres- depois que o nazismo ameaçou liquidar a velha Albion e submeter o mundo ocidental a uma nova idade das trevas.

Barack Obama, parece, será o indicado pelos democratas para a disputa da Casa Branca, desbancando a chata da Hillary, coisa que talvez se defina logo no próximo dia 4. Para os leitores de Tocqueville, talvez sua eleição à mansão sem estilo da avenida Pensilvânia pareça realizar os prognósticos do nobre francês. Mas aqui entra o famoso paradoxo de Tocqueville, segundo o qual a ampla democratização torna banal a participação dos cidadãos e desinteressante a democracia.

O forte absenteísmo dos próprios norte-americanos às suas eleições presidenciais confirmaria o pessimismo tocquevilleano. Em termos schmittianos, a democracia de massas é não-agônica, onde não se decide nada. Não falta ao paradoxo de Tocqueville, como é óbvio, um certo desdém aristocrático, que o autor francês disfarça todo o tempo.

Uma crítica de direita se alinharia apressadamente ao paradoxo, desqualificando imediatamente a eleição do primeiro negro à Presidência dos EUA. Uma crítica pela esquerda vê o problema de outro ângulo: o paradoxo de Tocqueville não decorre da banalização da democracia pelo predomínio das massas, mas é um produto da colonização da política pela economia. Em outras palavras, o capitalismo, em sua fase globalitária, torna inútil a política e irrelevante a participação dos cidadãos. Nos EUA, é certo que decisões como a invasão do Iraque foram até mesmo planejadas no Salão Oval, mas antes o celerado Bush filho teve que pedir permissão a Alan Greenspan, o ex-todo-poderoso presidente do Fed; aliás, esse senhor atravessou os dois mandatos de Clinton e entrou pelo mandato de Bush adentro, somente renunciando um ano e meio atrás, e os norte-americanos nunca votaram nele para coisa alguma. E o Senado norte-americano, que ratifica as indicações presidenciais, faz-lhe uma argüição que é tão contestadora quanto os programas de Silvio Santos. Isso é a colonização da política pela economia.

Entre nós, mesmo a própria democratização brasileira, de que o PT foi co-autor importante, é hoje irrelevante: em lugar da transformação prometida pelos longos anos da "invenção democrática", o PT e Lula transformaram-se em fiadores do capitalismo globalitário no Brasil.

Vejam-se, como já se salientou aqui mesmo nesta Folha, os lucros do sistema bancário brasileiro e o tratamento do social: meros R$ 8 bilhões para o Bolsa Família, o ai-jesus de Lula e do lulo-petismo, e R$ 160 bilhões de juros da dívida pública interna. Ou em 2007, os R$ 20 bilhões do lucro dos quatro maiores bancos contra os R$ 21 bilhões de todo o Orçamento social de Lula (incluindo-se seguridade social, Bolsa Família et al).

Tomara que Obama desminta o paradoxo de Tocqueville; tomara que suspenda imediatamente o odioso embargo contra Cuba, aproveitando inclusive a oportunidade da retirada de Fidel da linha de frente do governo cubano; tomara que retire as tropas do Iraque, terminando de vez com esse desastre anunciado; tomara que retome a linha de um Jimmy Carter, não apoiando as ditaduras e o descarado intervencionismo gringo; tomara que inaugure uma linha próxima do New Deal rooseveltiano e detenha o empobrecimento das classes populares norteamericanas e a crescente desigualdade; tomara que um desastre como o Katrina não possa outra vez expor a olho nu a produção desapiedada da pobreza, escondida no charme da outrora francesa Nova Orleans. Tomara. Mas que é improvável, é. Ele é tão parecido com a Hillary, com seu terninho correto que faz par com o tailleur da ex-primeira-dama, quanto o PT com o PSDB. Tocqueville ri na tumba?

 FRANCISCO DE OLIVEIRA, 74, é professor titular aposentado do Departamento de Sociologia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP.



Categoria: ARTIGOS
Escrito por gilvan.cavalcantidemelo às 10h06
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DEU NA FOLHA DE S. PAULO

 

A TAPIOCA AZEDOU

Eliane Cantanhêde

BRASÍLIA - O presidente do PSDB, Sérgio Guerra, seu antecessor, Tasso Jereissati, e os líderes Arthur Virgílio, tucano, e José Agripino Maia, do DEM, desembarcaram em peso ontem na CPI das ONGs.

O gesto sugere que a oposição não dá um tostão furado pela CPI da Tapioca, principalmente depois que os cartões corporativos de Serra entraram na roda, e prefere investir nas ONGs, muito vinculadas ao PT e ao governo federal.

Já que não podiam recuar de todo na CPI da Tapioca, os tucanos indicaram Marisa Serrano para a presidência, pelo menos para manter algum controle sobre as investigações e aproveitar a exposição da senadora para vincular a (boa) imagem dela à do partido.

Mas o alvo preferencial, ou real, é a outra CPI. Sérgio Guerra, por exemplo, acusa as ONGs de serem cabos eleitorais do PT e de Lula, inclusive propagando a versão de que um eventual governo Alckmin privatizaria Petrobras e BB, botando milhões de empregados na rua.

As ONGs devem servir novamente de instrumento da guerra entre petistas, de um lado, e tucanos e demos, de outro, neste novo ano eleitoral. Com a oposição no ataque, não é difícil imaginar governo e PT atrás de umas ONGzinhas financiadas pelos governos de São Paulo e de Minas. Para tentar zerar o jogo, como no "mensalão" e na tapioca.

Um dos resultados práticos da CPI do Orçamento, em 1993, foi acabar com a subvenção oficial a entidades privadas, mas logo depois abriram a porteira daqui e dali. Onde passa boi passa boiada. Soltar dinheiro "governamental" para entidades "não-governamentais" virou prática corriqueira. Daí a virarem braços políticos foi um pulo.

Na balança do Congresso, desce a CPI da Tapioca, sobe a das ONGs. Urge encontrar um ponto de equilíbrio que preserve as centenas ou até milhares de entidades que, além de limpas, prestam importante serviço ao país e à sociedade.

 



Escrito por gilvan.cavalcantidemelo às 10h00
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DEU NA FOLHA DE S. PAULO

O ESTADO CAIXA-PRETA

Clóvis Rossi

SÃO PAULO - Como é possível a uma entidade atuar adequadamente se não tem uma perspectiva correta de como entra dinheiro em seus cofres?

Como é possível a uma sociedade viver civilizadamente se não tem uma idéia acabada de quanto e de como lhe vão extrair recursos?

Essas são as perguntas inevitáveis a partir do anúncio de que a arrecadação de impostos "estourou" no mês passado, aumentando mais que o crescimento econômico e mais que a inflação, mesmo sem a tal CPMF.

O governismo trombeteou, enquanto o Congresso discutia a prorrogação ou não da CPMF, que, sem ela, o mundo acabaria. Lula chegou a dizer que "ninguém governa" sem a CPMF.
Está visto que o mundo não acabou e que o governo continua governando, com ou sem CPMF (até porque está no piloto automático desde o segundo mandato de Fernando Henrique Cardoso).

O que aconteceu então? Ninguém sabe direito, porque o Estado brasileiro, em todos os seus níveis, é uma caixa-preta sem controle. Cada vez mais devassado, é verdade, porque a democracia tem essa vantagem, entre mil outras: força a quebra do secretismo com que se movem os governantes.

A Receita Federal, responsável pelo "estouro", diz que janeiro foi "atípico". Maneira vernacular de dizer: que bicho deu?

Na campanha eleitoral de 1994, nas indefectíveis entrevistas com os principais candidatos, a Folha ouviu, tanto de Lula como de FHC, que a prioridade número 1 era a reforma tributária. Oito anos de FHC e cinco de Lula depois, cadê a reforma tributária, prioridade 1?
Aliás, cabe uma pergunta anterior a essa: como é possível fazer reforma tributária em um país em que nem os arrecadadores nem os arrecadados têm noção correta sobre como e quanto pinga de dinheiro nos cofres do governo?

 



Escrito por gilvan.cavalcantidemelo às 09h56
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DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

 

A CORRELAÇÃO DA FORÇA

Dora Kramer

O governo federal caminha célere e firmemente para ganhar as eleições municipais na maioria das cidades. Não dá para adivinhar quantas prefeituras a mais terá a coalizão governista ou com quantas a menos ficarão os oposicionistas.

Mas é possível afirmar com segurança que a atual correlação de forças no tocante às prefeituras no mínimo será mantida e, hoje, ela é favorável ao governo.

Das cem cidades mais populosas do Brasil, os partidos governistas administram 70%, contra 30% dos oposicionistas. Nas capitais a proporção se mantém e, tirando São Paulo, onde o peso da política, do eleitorado de opinião e das máquinas locais (Estado e prefeitura) é maior do que a capacidade de influência do governo federal, as ações comandadas a partir de Brasília serão determinantes.

A cidade do Rio de Janeiro poderia ser incluída na lista, não fosse o apoio do governador Sérgio Cabral e a gama de alternativas que Lula vem criando, entre as quais está a candidatura do senador Marcelo Crivella, sustentado pelo império da Igreja Universal.

A agenda eleitoral que o Palácio do Planalto está montando indica que o governo não vai improvisar nem confiar na sorte como em 2004, quando o PT pretendia conquistar mil prefeituras e não chegou nem à metade.

No plano geral, apostará em seu sucesso pessoal e no desempenho da economia. No específico, o papel primordial será cumprido pelos programas assistenciais. O ano de 2007, como se vê já nos primeiros dois meses de 2008, foi de intensos e bem acertados preparativos.

Primeiro, ampliou-se o Bolsa Família para incluir jovens de 16 e 17 anos por meio de uma medida provisória assinada no último dia do ano passado, a fim de escapar às restrições da Lei Eleitoral. Depois, outra MP criou uma bolsa de R$ 400 para participantes do Programa de Segurança Pública com Cidadania (Pronasci).

Esta semana foi lançado um programa de ajuda rural a 958 municípios, os chamados Territórios da Cidadania, que receberão R$ 11,3 bilhões neste ano. E por aí deverá ir o governo, sempre argumentando que não pode deixar de fazer bem porque o ano é eleitoral, propositadamente indiferente ao fato de que o benefício poderia ter sido criado a qualquer tempo.

E depois responsabiliza-se a reeleição pelo desequilíbrio das disputas eleitorais em favor dos ocupantes do poder. Erro de pessoa. O desequilíbrio se sustenta na maior ou menor disposição de usar a máquina pública. Não é, pois, falha técnica. É humana.

Chá e simpatia

O presidente Luiz Inácio da Silva já começou, na negociação da reforma tributária, a cumprir a escrita de que não arbitra conflitos, não contraria interesses e, diante das bolas divididas, passa o lance adiante.

As centrais sindicais não gostaram da redução da contribuição dos empresários à Previdência. Lula, então, mandou que o Ministério da Fazenda revisse a medida que, segundo o ministério, não será revista, pois não haverá a perda aludida pelas centrais.

Ficou tudo na mesma, mas o presidente não se comprometeu diante dos sindicalistas. Como de resto, pelo jeito, evitará se comprometer com quaisquer conflitos, esperando que se resolvam por si.

Nessa toada, a reforma chega amanhã ao Congresso, destinada a tramitar ao sabor do confronto de interesses que, à ausência de árbitro, tendem a somar zero.

Fratura exposta

Antonio Palocci não é o único - há dezenas em sua companhia -, mas é o exemplo atualmente mais vistoso do dano que a tolerância dos partidos e da Justiça Eleitoral em relação a candidatos com pendências legais causa à imagem do Poder Legislativo.

Denunciado pelo procurador-geral da República pela quebra do sigilo bancário de uma testemunha que o apontou como freqüentador de uma casa de lobby montada em Brasília por ex-assessores acusados de integrar esquema de corrupção na Prefeitura de Ribeirão Preto à época em que era prefeito da cidade, Palocci é o favorito do governo para relatar a proposta de reforma tributária.

Se ganhar o posto, terá sido por sua competência. Se não ganhar, terá sofrido os efeitos de seus pecados. De qualquer forma, um constrangimento. Inexistente se a ficha limpa fosse um pressuposto básico para todos os candidatos a mandatos eletivos.

Avis rara

Plenário ainda vazio na abertura da sessão ontem, um deputado de primeiro mandato, Marcelo Almeida (PMDB-PR), ocupou a tribuna para propor que a Câmara, ao início de cada legislatura, ponha os novatos em regime de imersão para aprender como funciona o Orçamento, a fim de fiscalizar sua execução sem “ficarem reféns das notícias de jornal”.

Ninguém deu a menor bola, claro. Agora, se propusesse aulas sobre meios e modos de abocanhar o Orçamento via emendas individuais e coletivas, o deputado arregimentaria multidões.

 



Escrito por gilvan.cavalcantidemelo às 14h16
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ESPECIAL DO BLOG

ATRASO DA CPI, ECONOMIA E LANÇAMENTO

DE REFORMA ENSEJAM ÓTIMA CONJUNTURA A LULA

Jarbas de Holanda


1)    Para o presidente Lula, o ingrediente negativo e preocupante da conjuntura política deste início de ano –manchetes do conjunto da mídia sobre o escândalo dos cartões corporativos federais – foi até agora abafado ou relegado a plano bem secundário pelo atraso na instalação da CPI mista destinada a apurar as irregularidades correspondentes (atraso gerado pela objeção do PT, com o respaldo de parte do governo, à proposta conciliatória das lideranças do PMDB, apoiadas pelo ministro das Relações Institucionais José Múcio Monteiro, de entrega da presidência dela a um senador tucano).

 

O retardamento da CPI, bem como a incerteza, que crescem, sobre como ela funcionará e o grau de importância que terá para a sociedade, propiciaram ao Palácio do Planalto desencadear a “agenda positiva” do debate em torno da proposta da reforma tributária (mesmo que só anunciada em termos genéricos), tendo já logrado inclusive manifestação favorável do governador tucano de Minas Gerais, Aécio Neves, após encontro com o ministro da Fazenda Guido Mantega.

 

2)    A afirmação dessa agenda foi favorecida pela sucessão de boas notícias na economia – dos indicadores de crescimento das atividades produtivas e da geração de empregos, combinados com os de controle da inflação (fatores centrais da ascendente popularidade de Lula, registrada na última pesquisa CNT/Sensus) até os relativos à dívida externa, que não existe mais, e à perspectiva de que o Brasil sofrerá apenas reduzidos efeitos de uma recessão nos EUA ainda considerada possível. Soma de indicadores internos e de relações econômicas externas que se reflete no retomada pelo Ibovespa dos melhores índices de 2007, na reversão do Risco-Brasil no mesmo sentido, na manutenção e até ampliação de investimentos produtivos estrangeiros. Entre os fatores domésticos positivos inclui-se o afastamento da ameaça de um apagão elétrico em 2008 em face das chuvas abundantes nos três últimos meses.

 

3)    Esta conjuntura tão favorável ao reforçamento de Lula e de seu governo e do papel que pessoalmente ele deverá empenhar na sucessão presidencial de 2010 – arquivada a idéia da disputa de um terceiro mandato, e até agora sem que se configure um candidato competitivo do PT – explica ações significativas recentes de alguns políticos de peso ligados à base governista. Como Ciro Gomes retornando à mídia com o estímulo do presidente para que busque se aproximar do PT. Ou como os dirigentes da executiva nacional do PMDB retomando o acercamento a Aécio Neves com a oferta da legenda para que ele venha a ser um candidato presidencial com possível apoio do Palácio do Planalto. Quanto ao PMDB, sua influência, crescente, no governo tem duas dimensões – a administrativa ou fisiológica, para a obtenção de mais cargos, e a propriamente política, de mediador das relações do presidente com o Congresso, induzindo e reforçando o pragmatismo de Lula. Dimensão esta de que são exemplos, agora, a proposta conciliatória da divisão de comandos da CPI mista, contraposta à de radicalização com a defesa pelo PT de comando unitário governista, e, anteriormente, o conselho dado  ao presidente contra a tentativa de recriação da CPMF (proposta  pelos petistas e por Guido Mantega logo após a queda do chamado imposto do cheque).

 

4)    Tais ações e as perspectivas desses e de outros atores próximos de Lula são estimuladas pelo cenário político do início de 2008. O que, obviamente, poderá mudar ou ser bem atenuado na eventualidade de resultados e efeitos muito negativos (para o governo) da CPI mista dos cartões corporativos, ou de novos escândalos que o PT e o governo têm sido pródigos em proporcionar. Sem esquecer os desdobramentos do processo do mensalão e de outros do gênero, como o que está recolocando na fogueira o ex-ministro da Fazenda e ex-prefeito petista de Ribeirão Preto, Antonio Palocci, com cuja atuação como relator do projeto da reforma tributária o presidente contava para compensar a escassa credibilidade política de Mantega.

 



Escrito por gilvan.cavalcantidemelo às 14h09
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DEU NO BLOG DA LUCIA HIPPOLITO

 

VAI SOBRAR PARA A OPOSIÇÃO

Lucia Hippolito


Às vezes, parece que a política brasileira habita vários universos paralelos. Depois, lá no final acontece uma pororoca, e as pessoas se surpreendem.


Os ingredientes da mais recente confusão são os seguintes:


1. Câmara e Senado reclamam fortemente do excesso de Medidas Provisórias, que trancam a pauta freqüentemente e impedem que o Legislativo exerça sua mais nobre função, a de legislar.


Os presidentes da Câmara e do Senado criaram uma força-tarefa para propor modificações na tramitação das MPs.


2. Orçamento da União não foi votado até agora. No próximo dia 29 extingue-se o mandato de todas as comissões permanentes do Congresso – e, portanto, também da poderosa Comissão Mista de Orçamento.


Novos membros serão escolhidos, e isto não se faz sem algum derramamento de sangue. No caso da Comissão de Orçamento, isto não significa que todo o trabalho volte à estaca zero, mas atrasa e muito a votação do Orçamento.


3. Enquanto não dispõe o Orçamento, o governo federal não pode gastar. Por isso, o Planalto ameaça retaliar, editando uma catarata de MPs para viabilizar despesas – pois o Orçamento ainda não foi votado.


4. Governo e oposição disputam ferozmente o comando da CPI Mista dos Cartões. O obstáculo maior ao entendimento é o deputado Henrique Fontana (PT-RS), líder do governo na Câmara. Fontana quer presidência e relatoria nas mãos da base aliada.


Mas os líderes no Senado e no Congresso, Romero Jucá e Roseana Sarney sugerem a entrega da presidência à oposição. Oposição oferece o nome de Jarbas Vasconcelos (PMDB-PE), que por ser dissidente, não é aceito pelo Planalto.


5. PMDB reúne sua bancada no Senado às 10h de hoje. O líder Waldir Raupp não quer entregar presidência nem à oposição nem a Jarbas e recomendou ao senador Neuto do Conto, que já estava se preparando para viajar a Santa Catarina, que não saia de Brasília – Neuto de Conto (PMDB-SC) é, até agora, o nome escolhido pela base aliada para presidir a CPI.


6. Oposição decidiu dar prazo até 14h de hoje para o governo escolher se entrega ou não um dos cargos da CPI à oposição. Caso contrário, será lido no plenário do Senado o requerimento para a instalação da CPI exclusiva.


Este resultado é politicamente desastroso para o governo, porque pode gerar uma nova CPI do fim do mundo (a CPI dos Bingos, que funcionou junto com a CPI dos Correios, no escândalo do mensalão).


Com isso tudo, o governo Lula acredita que terá ambiente para votar uma coisa tão importante e delicada, como é a reforma tributária, que exigirá doses de entendimento, articulação e de uma sofisticação política nunca antes praticada pela base aliada.


Ou os articuladores políticos do governo são de uma inocência a toda prova, ou o governo está de má-fé e apelou para a reforma tributária como uma “bode”, uma cortina de fumaça para gerar uma agenda positiva e abafar o noticiário negativo da farra dos cartões corporativos, das ONGs que recebem recursos vultosos, da situação do ministro do Trabalho, enfim, de tudo o que vem afetando negativamente a performance do governo.


O resultado da pororoca a gente conhece: se a reforma tributária fracassar, o governo ainda pendura a fatura na conta da oposição.





Escrito por gilvan.cavalcantidemelo às 14h02
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DEU EN O GLOBO

O ILUSIONISTA

Merval Pereira

Uma capacidade inegável do político Luiz Inácio Lula da Silva, certamente adquirida nos tempos de líder sindical, é equilibrar-se nas palavras mais do que nos fatos. E sua trajetória na vida pública mostra que a estratégia tem dado certo. É assim que ele trata como "um probleminha" a crise do gás com a Bolívia, ou como "um tumorzinho" o desmatamento da Amazônia, sem considerá-lo o câncer que realmente é. Quando lhe convém, por outro lado, engrandece os feitos de seu governo, mesmo à custa da realidade. Foi o que fez ao comemorar na ONU a redução do desmatamento, quando já tinha informações de que ele havia crescido novamente.

É o que acontece com a propalada extinção de nossa dívida externa, "um novo grito de independência", segundo Lula. Entusiasmado com o próprio feito, o presidente Lula chegou a dizer que agora já é hora de o país voltar a se endividar para fazer investimentos na infra-estrutura. À primeira vista, a frase não faz sentido, mas ela reflete menos uma irresponsabilidade retórica de Lula e mais uma esperteza política, como veremos.

Definir o que é "zerar a dívida externa brasileira" não é tarefa fácil. Ao final de 2007, as reservas brasileiras estavam em US$180,3 bilhões, e já em janeiro o governo tinha um saldo de quase US$7 bilhões, somando-se todos os ativos financeiros em moeda estrangeira. Há, porém, quem prefira definir o nível de exposição do país incluindo o total de investimento de terceiros feito aqui, tanto capital de risco quanto capital de empréstimo.

Por esse critério, existiriam cerca de US$45 bilhões de investimentos de multinacionais que geram remessas de lucros para o exterior. Essa conta passou a ser considerada como investimento de multinacionais, e não empréstimos, o que reduziu a dívida externa total. O governo Lula não tem nada a ver com essa mudança de critério, e muito economista bom acha que o critério antigo não faz sentido. Mas o debate mostra que a zeragem da dívida externa não é uma definição pacífica.

Por outro lado, não há lógica no anúncio de que o país pode voltar a se endividar, pois a dívida interna líquida do governo está altíssima, era 37% no final do governo Fernando Henrique (que a pegou em torno de 20%, por sinal) e chegou a 51% do PIB pelo critério antigo de medição do IBGE. Pelo critério novo, deve estar na casa dos 43% do PIB, muito longe do nível considerado aceitável tecnicamente, que é de 30% do PIB.

Portanto, o governo não tem condições de se endividar. O que leva o presidente Lula a fazer afirmação tão extemporânea? Tudo indica que ele já tenha sido avisado por sua equipe econômica de que a situação de credor é temporária, e muito provavelmente voltaremos a recorrer a dinheiro do exterior para os investimentos necessários ao crescimento econômico.

Como não temos poupança interna que permita investimento com recursos próprios, basicamente devido ao modelo muito caro de previdência social que escolhemos, a tendência é as empresas privadas se endividarem, e também recorrermos a empresas estrangeiras para realizar os investimentos necessários.

Não é por acaso que já estamos com déficit de conta corrente, pois o dólar barato está incentivando as importações de máquinas e equipamentos, o que é um bom sinal, mas traz consigo o endividamento.

O governo, pois, deveria voltar suas energias para reduzir a dívida interna, cujo crescimento muitos críticos, como o ex-presidente do Banco Central Affonso Celso Pastore, atribuem a uma política equivocada de troca da dívida externa por dívida interna, mais cara. Reduzir a dívida atrelada ao dólar e trocá-la por dívida em real é correto teoricamente, mas na prática mostrou-se uma decisão cara, pois a Selic continua muito alta, e o dólar desvalorizou-se. Há quem avalie em 5% do PIB o custo dessa decisão.

O pagamento antecipado da dívida ao FMI e do Clube de Paris, que ajudou na extinção virtual de nossa dívida externa, entra no mesmo plano de trocar dívida barata por cara, embora fosse um movimento considerado correto pela maioria dos economistas. Apresentado como uma libertação do jugo internacional, o pagamento não passaria de uma política simbólica. Não só porque essa dívida é o dinheiro mais barato que um país pode obter, como porque as normas do FMI continuam regendo nossa economia.

A mesma ilusão o governo passou ao anunciar a auto-suficiência do petróleo em abril de 2006, Lula imitando Getúlio Vargas com as mãos sujas de petróleo. A Petrobras diz que a marca foi atingida em outubro, mas a meta de obter média anual acima do consumo só viria em fevereiro do ano seguinte. Passados quase dois anos, o país já produz, de fato, um excedente de barris. Mas parte dessa produção é de óleo pesado, que não pode ser usado em nossas refinarias.

A auto-suficiência, portanto, não significa que o país já se baste com seu petróleo, muito menos que lucre com ele. Devido à diferença de cotações entre o petróleo pesado que o Brasil vende, mais barato, e o leve, que importa e é mais nobre, o saldo da balança comercial de petróleo segue negativo. Segundo os especialistas, somente entre 2010 e 2015, quando os novos campos de óleo leve como o de Tupi entrarem em produção, o país conseguirá zerar, de fato, as perdas.

O próximo presidente poderá dizer que na sua gestão o Brasil tornou-se um país exportador de petróleo, um sócio potencial da OPEP. Mas os méritos não serão apenas dele, como a descoberta de Tupi não foi um mérito apenas do governo Lula. Todos os avanços obtidos são louváveis, e devem-se a um processo econômico em curso há muitos governos, que o presidente Lula teve a sabedoria de não interromper, como ameaçou durante toda a sua vida política de bravatas oposicionistas.

 

 



Escrito por gilvan.cavalcantidemelo às 13h57
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DEU NO CORREIO BRAZILIENSE

A CONTAGEM REGRESSIVA

Luiz Carlos Azedo

Lula começa a conviver com a expectativa de poder gerada fora do Palácio do Planalto, seja pelos governadores tucanos de São Paulo, José Serra; e de Minas, Aécio Neves, seja também pela alternativa “gauche” do deputado Ciro Gomes

Não existe nada mais corrosivo para um presidente da República do que a expectativa de poder gerada por seu possível sucessor. Principalmente quando a oposição está em vantagem na linha imaginária de sucessão. É o que começa a acontecer com o governo Lula, apesar de ostentar altos índices de aprovação popular. Quando as forças centrífugas da política começam a agir, o poder vai se tornando mais volátil. E impera uma espécie de “Lei de Murici”, aquela enunciada pelo coronel Tamarindo na desastrada debandada no sertão de Canudos: “Cada um cuida de si”. Essa dispersão de forças na base governista começa nas eleições municipais.

Agenda negativa

Desde dezembro passado, depois da derrubada da Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira (CPMF), o governo enfrenta uma queda-de-braço com o Congresso que dá sinais de ser mais grave do que aparenta. Apesar de todo o empenho do presidente Luiz Inácio Lula da Slva, dos seus aliados e até mesmo de alguns governadores de oposição, o fim do imposto foi um sinal de que o governo perdeu o poder de levar adiante uma agenda negativa para a opinião pública. No caso, o que estava em questão era a transferência de renda da sociedade para o Estado, não importa que uma parte da arrecadação seja destinada a políticas sociais e, de certa forma, contribua para a transferência de renda para a população beneficiada pelo programa Bolsa Família, cerca de 11 milhões de famílias.

A transferência de renda da sociedade para o Estado virou uma linha divisória nas relações do Congresso com o governo Lula. Não é por acaso. Sem a CPMF, o governo federal arrecadou R$ 62,596 bilhões em impostos e contribuições em janeiro deste ano, um crescimento real de 20% frente a igual período de 2007. O governo ainda pode argumentar que houve queda de 5,14% em comparação com dezembro, segundo dados da Receita Federal divulgados ontem, mas o fato é que a arrecadação anual é ascendente. Além disso, o rombo causado pela CPMF não é tão grande como se falava. Por essa razão, o governo perdeu qualquer condição de criar um novo imposto para substituir o que perdeu. O escândalo dos cartões corporativos manteve na ordem do dia a agenda negativa: a qualidade dos gastos públicos deixa muito a desejar.

Por incrível que pareça, a proposta de reforma tributária que o governo acaba de anunciar mantém na ordem do dia a agenda da excessiva arrecadação de impostos e da má qualidade dos gastos públicos. Porque não existe proposta de reforma tributária em meio de mandato que não seja para aumentar a arrecadação de impostos. Quando o governo argumenta que a oportunidade é esta, porque o país está crescendo, constrói uma meia-verdade. O governo quer arrecadar mais porque parte do princípio de que o Estado é a alavanca do desenvolvimento nacional e não a iniciativa privada.

Linha de sucessão

O que isso tem a ver com a sucessão de Lula em 2010? Quase tudo. Sem um candidato competitivo no PT, Lula começa a conviver com a expectativa de poder gerada fora do Palácio do Planalto, seja pelos governadores tucanos de São Paulo, José Serra; e de Minas, Aécio Neves, seja também pela alternativa “gauche” do deputado Ciro Gomes (PSB-CE), ex-governador do Ceará. Lula poderia apostar numa candidatura petista puro-sangue em sintonia com sua política social, como a do ministro do Desenvolvimento Social, o Patrus Ananias (PT-MG), ou no charme da ministra do Turismo, a ex-prefeita Marta Suplicy (PT-SP), mas acredita que o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) vai gerar uma alternativa de poder. E aposta na ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff (PT), com quem pretende correr os canteiros de obras do governo federal pelo país afora. Engenheira e economista, Dilma encarna a idéia de que o Estado é quase tudo no Brasil até na forma como se relaciona com os políticos da base aliada no Congresso.

A reforma tributária do governo Lula tem como objetivo financiar o PAC e outros gastos da administração federal, que estão em xeque com o fim da CPMF. Tem boas propostas e idéias interessantes, mas mexe com o pacto federativo ao deslocar o eixo da cobrança de impostos do local de produção das mercadorias para o local de consumo e ao redistribuir as receitas entre a União, estados e municípios. Não é uma discussão para um Congresso onde todos os deputados e dois terços dos senadores estão em risco eleitoral e seguem a “Lei de Murici. É um debate para campanha de presidente da República e começo de mandato. Por isso, sa contagem regressiva para as eleições de 2010 se acelera, despertando as tais forças centrífugas da política nacional.

 



Escrito por gilvan.cavalcantidemelo às 13h51
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DEU NO VALOR ECONÔMICO

ANTES SÓ DO QUE FORA DO GOVERNO
Rosângela Bittar
 

O PMDB não desistiu de ter Aécio Neves em seu portfólio de candidatos, e Aécio Neves não desistiu de ter o PMDB em sua carteira de oportunidades partidárias. É o que indicam encontros públicos e privados entre a cúpula do grande partido de características hoje cem porcento regionais e o governador de Minas Gerais.
 
Os dois lados não transitam no terreno do explícito. Na última reunião com o governador, Michel Temer (presidente) e Henrique Eduardo Alves (líder na Câmara) falaram muito de Tancredo Neves, o avô pemedebista de Aécio, e sobre como seria bom resgatar o neto para o partido. Como velhos amigos à época de convivência na Câmara Federal, o presidente do PMDB e o governador de Minas jantaram juntos recentemente, e devem ter nova reunião em breve, intencionalmente sem marcar data, mas há reconhecimento tácito de que é cedo para medidas concretas no campo da sucessão presidencial.
 
São contatos ainda com muitos disfarces. Temer, por exemplo, esteve com o governador de São Paulo, José Serra, há quatro meses, mas em nenhum momento da conversa esteve subentendida na agenda a sua transferência para o PMDB. Com Aécio, embora considere difícil o governador de Minas deixar o PSDB, os acenos, ainda tímidos, têm mais rumo: "Se você estivesse no PMDB, seria naturalmente o candidato a presidente"...é o que se diz.
 
Aécio não desestimula esta conversa, embora no seu partido a cúpula consolide algumas outras certezas. Acreditam os dirigentes tucanos que Aécio Neves não sairá do PSDB e está apenas se preparando para ser candidato a senador na próxima eleição e a presidente logo depois de José Serra, uma realidade partidária para 2010.
 
O PMDB, porém, não desistirá. Enquanto isto, faz outras apostas. Aliás, não há ninguém parado em nenhum dos partidos, sejam os da base aliada ao Presidente da República, sejam os de oposição a ele. Enquanto espera o momento certo para conquistar ou desistir do governador de Minas -com ele o PMDB tem convicção de que apresentaria candidato próprio à sucessão presidencial com chance de vitória e, por isto, este candidato seria o único da base lulista, como se pretendeu o governo desde sempre - o partido vai alimentando idéias diversas.
 
 Ausência de verticalização facilitará alianças 
 
Temer já se reuniu também com o governador do Rio, Sergio Cabral, que hoje já está na categoria convencionada como a dos não candidatos naturais: os governadores que têm a possibilidade de reeleição não vão deixar mais quatro anos na mão por oito voando. Um problema que não afeta o governador do Paraná, Roberto Requião, já no segundo mandato e atualmente o mais disponível candidato do PMDB e o único que não esconde desejar a disputa.
 
Outro candidato pemedebista é o ministro Nelson Jobim (Defesa), a depender do projeto que consiga levar ao sucesso no governo Luiz Inácio Lula da Silva. Jobim afasta uma candidatura, hoje. "Eu não tenho voto, não sou candidato a nada". O ministro faz a recorrente brincadeira de que sua mulher, "felizmente", não o deixa entrar nessa, mas o fato é que se ele tiver condições de concorrer e for o escolhido, Adrienne Sena certamente não imporá obstáculos.
 
Jobim vê o PMDB, atualmente, sem um candidato que una minimamente o partido. "A grande unificação nacional que o PMDB tinha era a oposição aos militares. Quando acabou a transição, desapareceram os militares, percebeu-se que o PMDB era uma grande confederação de partidos regionais. Inclusive fiz um discurso sobre isso na convenção de 1989. E os líderes eram regionais, que só tinham perspectivas regionais e pretensões regionais. A eleição para Câmara e Senado, em que o PMDB faz grandes bancadas, é uma eleição regional, as disputas são locais, produzidas nos estados. A Câmara não é uma Assembléia Nacional, do tipo francesa, é uma assembléia dos Estados brasileiros, através de suas bancadas. Isto continua". Pergunta o ministro: "Há um nome que possa unir Pernambuco e Minas?" Não, afirma.
 
Lembra, ainda, que 2010 não terá a norma da verticalização, e este é um fator a facilitar todas as alianças possíveis. A ausência da verticalização é um fato que está também nos cenários traçados pelo presidente do partido, que considera isto um dado a favor da candidatura própria. "Na última eleição não tivemos candidato porque prevaleceu a verticalização e nossos candidatos a governador já tinham firmado alianças". Temer afirma que a opção número um do partido é ter um candidato próprio; a segunda é este candidato ser o da coalizão governista; e a terceira sair, logo de início, para a aliança. Reconhece que, "muito legitimamente", o PMDB, o PSB, o PT, querem ter candidato à sucessão de Lula, e desde quando participou de sua primeira reunião com o conselho político do governo, apoiou a idéia de uma candidatura única da coalizão. Isto pode significar uma união só no segundo turno ou, se não conseguir um candidato competitivo, o PMDB ficar logo aliado a algum candidato com chances de manter o status quo: fazer uma grande bancada, emprestar seu elástico tempo de propaganda gratuita na TV a candidaturas competitivas e continuar no poder sem disputar.
 
A teoria na prática...
 
O Democratas, partido que derrubou a CPMF e tem na redução da carga tributária e no abuso da cobrança de impostos pelo governo federal seu principal tema programático, quando no Executivo - o governo do Distrito Federal - comporta-se de forma semelhante e, como o exemplo de cima, também não dá muita explicação. O IPTU de 2008 foi calculado errado, o aumento máximo seria de 16,58% (a inflação não foi de 4,46%?) e os carnês chegaram aos moradores com quase 30% de reajuste. Foram corrigidos, mas duas semanas depois da data limite em que muitos iniciaram seus pagamentos com os preços exorbitantes. Um "engano" destas proporções e assim, em massa, para um partido que defende exatamente o contrário, é de deixar o consumidor desconfiado.
 
Rosângela Bittar é chefe da Redação, em Brasília. Escreve às quartas-feiras
 


Escrito por gilvan.cavalcantidemelo às 13h45
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DEU NA FOLHA DE S. PAULO

 

TERRITÓRIOS OCUPADOS

Melchiades Filho

BRASÍLIA - Colocar o recém-lançado Territórios da Cidadania no mesmo saco do Bolsa Família é uma injustiça com o programa-símbolo do primeiro mandato de Lula. O "novo" mutirão contra a pobreza rural não passa de um catálogo de 135 ações sociais já existentes e de verbas já estimadas no Orçamento para atender os 958 municípios mais carentes do país.

(Houvesse dinheiro extra ou mesmo a realocação de investimentos, estaria configurado crime eleitoral, e o governo federal teria de adiar a iniciativa para 2009.)

O impacto do Territórios também é incerto. No cenário mais otimista, ele alcançará 8 milhões de habitantes, um quinto da população beneficiada pelo Bolsa Família. Os R$ 11 bilhões prometidos para a largada neste ano parecem chute.

A coordenação não soube informar quanto cada cidade levará, qual será a fatia correspondente a cada projeto (Luz para Todos, Farmácia Popular etc.), nem quanto foi destinado a esses municípios em 2007. Ou seja, em tese, o Territórios pode significar um corte de recursos.

Por que o espalhafato no anúncio do mutirão, então? Não se trata só da conhecida queda de Lula por um microfone. As áreas rurais mais pobres são um foco de críticas. A reforma agrária avançou pouco. O acesso ao crédito no campo, um trunfo deste governo, não foi traduzido em dividendo político. Era preciso falar algo a esse eleitorado.

O Territórios é, portanto, pura propaganda. Mas justamente por isso pode vir a ter utilidades.

Outro candidato à marca-fantasia de Lula 2, o PAC também não passava de um catálogo de obras já previstas. A sigla marqueteira, porém, forçou o Planalto a gerir esse catálogo e divulgar balanços periódicos. Bem ou mal, o país vai aprendendo a debater infra-estrutura. Se bem feito, o cadastro de ações sociais pode chamar a atenção (não só do governo) para regiões miseráveis e ajudar a aplicar melhor o dinheiro de que elas necessitam.

 



Escrito por gilvan.cavalcantidemelo às 13h38
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DEU NO JORNAL DO BRASIL

 

A RESSURREIÇÃO DO ESCÂNDALO PALOCCI

Villas-Bôas Corrêa

Como eco longínquo de estrondo perdido na memória, um dos escândalos da rodada inaugural de uma série que parece não ter fim - a denúncia apresentada pelo procurador-geral da República, Antonio Fernando de Souza, ao Supremo Tribunal Federal (STF), contra o ex-ministro e atual deputado federal Antonio Palocci, da impoluta bancada do PT-SP - remexe na ferida gangrenada que resiste a todas as curas do esquecimento e cutuca na inevitável rememoração da seqüência de denúncias, que ora divide o seu espaço na ribalta com o escabroso episódio dos saques nos cartões de crédito corporativo para o pagamento de despesas em free shop, aluguel de carro com motorista e demais excentricidades de ministros, secretários e assessores privilegiados.

O desencarnado que baixa em roda de candomblé é emblemático. Não se trata de mais uma conta no colar das mutretas. O centro da denúncia do procurador-geral é a quebra do sigilo funcional, determinada pelo então ministro da Fazenda do governo do presidente Lula, das informações bancárias do modesto caseiro Francenildo dos Santos Costa.

De cambulhada no mesmo saco também foram denunciados o ex-presidente da Caixa Econômica Federal, Jorge Mattoso, e o ex-assessor de imprensa de Palocci, Marcelo Netto, acusado de obter os extratos bancários do caseiro, que foram divulgados pela revista Época.

Na rolagem da bolota de lama, imprensado contra a parede, o caseiro Francenildo soprou o trombone dos segredos, há muito sussurrados nas fofocas brasilienses: o mais importante ministro do governo, da pasta da Fazenda, intensamente badalado pelo sucesso do programa de combate a inflação, era freqüentador de uma mansão no bairro nobre de Brasília, centro de encontros amorosos e de transas de lobistas da turma de assessores do então prefeito de Ribeirão Preto.

Novamente o ex-ministro e atual deputado Antonio Palocci é alvejado em pleno vôo, quando reconquistara a confiança do presidente Lula e era ouvido sobre assuntos da sua especialidade.

Inútil especular sobre o desfecho da longa e detalhada denúncia do procurador-geral, Antonio Fernando de Souza. No próximo passo, caberá ao relator, ministro Gilmar Mendes, apresentar ao plenário do STF seu voto para a decisão dos 11 ministros. Se aceita, o deputado Palocci, o ex-presidente da CEF, Jorge Mattoso, e o jornalista Marcelo Netto serão réus num processo penal.

A exumação de múmias dos escândalos inaugurais da maior coleção de um governo era a última coisa que o presidente Lula poderia desejar quanto se lança, com toda a máquina, na pré-campanha para a eleição municipal do fim do ano.

São aventesmas que arrastam o bando para os debates parlamentares e o repique na imprensa. Não bastasse o aborrecimento causado pelo ministro do Trabalho, Carlos Lupi, que insiste em acumular a pasta com a presidência do PDT, provocando a demissão do presidente da Comissão Ética da República, Marcílio Marques Moreira. E que passou o cargo ao ex-ministro do STF, Sepúlveda Pertence. O novo presidente começou pisando no acelerador: enviou ao ministro Lupi nova intimação para que, no prazo de 10 dias, justifique os R$ 50 milhões com que beneficiou ONGs ligadas à Força Sindical e ao PDT.

Com aliados como o deputado Palocci e o ministro Lupi vaza pelo ralo o esforço para lançar programa como o Território da Cidadania e correr o país nas asas do Aerolula para vender o pacote que junta 135 projetos distribuídos em 19 ministérios e beneficia Estados e municípios.

Assim não dá.



Escrito por gilvan.cavalcantidemelo às 13h33
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DEU EM O SÃO PAULO

A TRAMA DA CORRUPÇÃO POLÍTICA

José de Souza Martins*

 

 

Corruptos não são apenas alguns. A maioria dos brasileiros, sem o saber, está envolvida na trama da corrupção. É que a corrupção entre nós é endêmica e histórica, impregnou a cultura do povo e está distribuída por praticamente toda a esfera pública. Ela se originou no regime patrimonial que deu nascimento a esta nação: troca de favores materiais por favores políticos, troca de voto por favorecimentos, fazer política negando a igualdade de direitos, o voto como bem material e privado e não como direito que encerra deveres para com o país.

A grande corrupção não seria possível se não fosse expressão de uma cultura da corrupção miúda e cotidiana. Vários notoriamente envolvidos no caso do mensalão foram reeleitos na eleição seguinte. Vários retornaram ao parlamento proclamando que tiveram a inocência reconhecida pelo povo no ato de reelegê-los. Aqui, ao votar, com as muitas e óbvias exceções que há, nós apenas nos rendemos, entregamos incondicionalmente a nossa vontade política aos eleitos, renunciamos.

Além do mais, no geral não votamos em representantes de idéias políticas, como é necessário na verdadeira política. Não raro votamos apenas na impressão que temos dos candidatos, na cara boazinha de um, na cara bonitinha de outro, na aparência de honesto de um terceiro, no seguidor da nossa religião de um quarto, porque no Brasil identidade religiosa inocenta e beatifica mesmo quem não o merece. O verdadeiro voto político dá liberdade ao cidadão para votar de acordo com convicções políticas e nada mais. Quando outras convicções prevalecem no voto é porque a sociedade está fragmentada, tornou-se impolítica. Nesse caso, o voto não cimenta o pacto político da diversidade e das diferenças. Apenas acentua as fraturas e facilita a negociata da troca corporativa de favores políticos por benefícios pessoais e partidários. Modo anti-político de manter o funcionamento político do país. Esse voto anula a nação política.

Como não somos politizados, tampouco conta se o sujeito é corrupto ou não. Na sociedade da propina, que é a nossa, o eleitor que se inquieta com a corrupção das grandes propinas, contraditoriamente, também dá a pequena propina que lhe permite ter a liberação mais rápida de um documento ou de um benefício. Ou, por simpatia pelo comerciante, não pede nota fiscal, tornando-se cúmplice da sonegação, que é roubo de recursos públicos que deveriam ser destinados ao bem público. Como queremos que não haja a grande corrupção se a maioria não resiste à tentação de praticar, até sob o pretexto da gratidão, pequenos atos de corrupção, em que o que permeia a nossa relação com o outro não é a igualdade e a razão e sim a desigualdade que a pequena corrupção evidencia e a subjugação moral da vontade do eleitor confirma?

*Professor de Sociologia na Faculdade de Filosofia da USP

 



Escrito por gilvan.cavalcantidemelo às 12h19
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DEU NO BLOG DA LUCIA HIPPOLITO

A REPÚBLICA SINDICALISTA – E PELEGA

Lucia Hippolito



A quebra de braço entre a Comissão de Ética Pública e o ministro do Trabalho Carlos Lupi caminha perigosamente para um final melancólico.


Ontem, o presidente da Comissão de Ética Pública desistiu e jogou a toalha: renunciou à presidência.


Em 23 de dezembro do ano passado, a Comissão solicitou ao presidente Lula que demita o ministro Lupi, mas o presidente faz cara de paisagem até hoje.


Com isso, Lupi continua afrontando a Comissão – e a ética: aparelha o Ministério do Trabalho com indicados do PDT, repassa verbas polpudas a ONGs ligadas ao PDT e, arrogantemente, declara: “daqui não saio, daqui ninguém me tira”.


Agora, o novo presidente da Comissão de Ética, o ex-ministro do STF Sepúlveda Pertence, deu a Lupi dez dias para responder por que continua desrespeitando as determinações da Comissão.


A argumentação do ministro e seus aliados, incluindo aí sindicalistas, alguns senadores e o próprio ministro José Múcio é a de ser presidente de partido em outros países credencia à ocupação de cargos públicos, não o contrário.


Mas este não é o entendimento da Comissão de Ética Pública no Brasil. Ou bem se respeita o entendimento da Comissão, ou ela não tem nenhuma razão de existir.


Aliás, Sepulveda Pertence declarou que, se o ministro se recusar a sair, e se o presidente da República não o demitir, só restará aos membros da Comissão de Ética decidir, em caráter individual, se permanecem ou não na Comissão.


É difícil que a ética saia vencedora neste caso. Todas as seis centrais sindicais decidiram cerrar fileiras para defender a permanência de Lupi no Ministério, sendo que cinco delas entregaram ao presidente Lula uma carta apoiando Carlos Lupi e atacando o ex-presidente Marcílio Marques Moreira.


Este é um governo cheio de sindicalistas, um governo em que os sindicalistas têm enorme força. Agora, por exemplo, antes mesmo de discutir a reforma tributária com governadores e Congresso, o próprio presidente Lula recebeu no Planalto os sindicalistas para apresentar a eles o projeto de reforma.


Os sindicalistas solicitaram – e o presidente concordou – a retirada de um ponto importante da reforma: a redução da contribuição previdenciária dos patrões.


Uma das melhores iniciativas do projeto de reforma, pois propiciaria um aumento de empregos – está muito caro dar emprego formal no Brasil – foi bombardeada pelas centrais sindicais.


Afinal, o papel de uma central não é defender a criação de novos empregos, mas garantir a permanência dos benefícios de quem já tem emprego.


Com isso, antes mesmo de ver o projeto discutido por empresários, políticos e toda a sociedade, o presidente Lula já atendeu à imposição de seus velhos companheiros.


Portanto, será uma surpresa se o presidente da República decidir enfrentar a pelegada e demitir o ministro do Trabalho.







Escrito por gilvan.cavalcantidemelo às 12h17
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DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

 

FAZER ACONTECER

Dora Kramer

A agenda de eventos comemorativos ao envio da proposta de reforma tributária ao Congresso é alentada. Ontem houve reunião do presidente Luiz Inácio da Silva com os sindicatos e apresentação de insinuado simbolismo ao governador de Minas Gerais, Aécio Neves.

Hoje está marcado encontro do ministro da Fazenda com a oposição, amanhã Lula tratará do assunto com empresários, quinta-feira a badalação fica por conta da entrega oficial da proposta ao Congresso e, na sexta-feira, a indefectível reunião de governadores.

A cada acontecimento, evidentemente corresponderá um discurso do presidente. A sistemática é sempre a mesma: solenidades, declarações, profissões de fé em prol do “diálogo com a sociedade” e inclusão do projeto no rol de realizações do governo, de modo a constar no balanço de fim de ano e integrar o programa do horário eleitoral.

Não se trata de duvidar das intenções do governo em ver de fato a reforma tributária, senão completa, pelo menos começar a ser feita. A questão é que de boas intenções o “book” eleitoral do Palácio do Planalto está repleto sem que nelas se possa enxergar substância.

Para não falar do PAC, cujo julgamento ainda demanda tempo para a concretização do prometido, fiquemos com dois exemplos em que houve barulho não correspondente ao resultado: a reforma da Previdência, até hoje em aberto, e as Parcerias Público-Privadas, que seriam a salvação da lavoura do desenvolvimento e simplesmente não aconteceram.

Não se pode, por antecipação, afirmar que o buraco negro será também o destino da reforma tributária. Não há elementos de prova para isso. É possível, porém, com base no histórico, no “modus operandi” e na hesitação de ministros e líderes políticos da situação, desconfiar da capacidade e da vontade do governo de fazê-la acontecer.

O roteiro de festejos por ora corrobora a já comprovada competência oficial no tocante à propaganda. A operação propriamente dita, ao encargo do presidente Lula, começou com o apelo à Câmara e ao Senado “para que votem porque o País depende dessas votações” e envereda por reuniões com “setores da sociedade” organizados para que o chefe da Nação se faça ouvir e encantar.

Ministros e líderes no Congresso pedem apoio dos parlamentares em público, mas, no particular, dizem claramente que o compromisso do governo reside apenas em mandar a proposta de reforma. A aprovação, afirmam, é com os parlamentares.

Naquele seu jeito de dizer o que pensa sem dizer exatamente o que lhe passa na cabeça, o governador Aécio Neves foi ao ponto: “Só quando há vontade política forte há condições para uma reforma desse porte se concretizar.” Aparentemente, uma frase de efeito, um elogio ao lugar comum.

Mas é isso mesmo. Quem tem a força para fazer do empenho algo concreto, para administrar as demandas, organizar os conflitos e arbitrar, é o governo. Dizer que “cabe ao Congresso” votar e aos governadores se entenderem é o mesmo que defender a reforma política e deixar aos políticos a tarefa de fazer acontecer.

Uma maneira de se desincumbir de uma missão, parecendo que cumpriu a promessa e que os outros é que não deram conta de tirá-la do papel. Assim é mais confortável, mais fácil, mas não é verdadeiro.

Se pretender mostrar que o governo está falando sério, o presidente Lula terá de fazer mais que discursos e patrocinar diálogos que, na realidade, são monólogos de auto-afirmação promocional.

Precisará se empenhar num debate sério, árduo, que na Constituinte de 1988, por exemplo, levou um ano e meio para se transformar em algo concreto e, ainda assim, imperfeito.

Precisará empregar tempo, negociar, pesar e medir conveniências sem perder o foco das conseqüências, elevar o padrão da conversa dentro de sua base de alianças e levar em conta com seriedade a oposição, cumprindo o pressuposto básico de saber aonde quer chegar e escolher os caminhos certos para atingir seus objetivos.

Na base do fisiologismo e na lógica do palanque, o governo não cumprirá seu papel de indutor de um projeto dessa natureza. Lula não perderá um ponto porcentual de popularidade, mas deixará passar a chance de fazer algo acontecer com sua marca de autoria original.

Força política para isso Lula tem de sobra. O que lhe falta é paciência, disciplina, clareza nas metas e, por que não dizer, coragem para desagradar a parceiros e contrariar interesses de gente e setores que possam lhe ser política e eleitoralmente úteis.

Referência perdida

Enquanto houver governos amigos dispostos a sustentar o regime, a perspectiva de mudança em Cuba é quase nula.

Quase, porque, mesmo lentamente, a evolução é inexorável. Cuba entra na agenda do debate mundial e agora na ausência de um fator essencial para a sustentação da ditadura: o compromisso com o mito por parte de celebridades internacionais - brasileiras incluídas - psicologicamente dependentes de heróis e utopias.

 



Escrito por gilvan.cavalcantidemelo às 12h12
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DEU EM O GLOBO

O PAPEL DE LULA

Merval Pereira



Há uma diferença fundamental entre a concepção econômica do novo grupo dirigente cubano, à frente o presidente Raúl Castro, e o modelo que está sendo implantado na China. Na economia chinesa, a base é o crescimento do PIB, enquanto na cubana será o crescimento do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), mecanismo utilizado pela ONU para medição da qualidade de vida de um povo, criado pelo economista paquistanês Mahbub ul Haq e pelo Prêmio Nobel Amartya Sen para avaliar outras dimensões que não apenas o PIB. Segundo o ex-assessor especial de Lula Frei Betto, que chegou de Cuba recentemente, onde esteve com Raúl Castro, de quem é amigo pessoal, os cubanos têm sérias ressalvas ao processo chinês exatamente por valorizar o crescimento econômico sem levar em conta o desenvolvimento social.


Além do PIB per capita corrigido pela paridade do poder de compra de cada país, o IDH leva em conta a longevidade e a educação. Para aferir a longevidade, o indicador se vale da expectativa de vida ao nascer. O item educação é avaliado pelo analfabetismo e pela taxa de matrícula em todos os níveis de ensino.


Para se ter uma idéia da situação atual, Cuba está incluído entre os países de "alto desenvolvimento humano", seleto grupo de 70 países no qual o Brasil ingressou este ano, na última posição. Cuba é o 51º país, e a China o 81º. A expectativa de vida em Cuba é maior que no Brasil e na China; o índice de escolarização é igual ao do Brasil e maior que o da China, e a alfabetização é quase total: 99,8%, contra 90,9% na China e 87,5% no Brasil. A renda per capita de Cuba, no entanto, é menor do que no Brasil e mesmo na China.


Essa medição, porém, é controversa, pois a ONU dá a Cuba renda per capita pelo poder de compra de U$6 mil, o que parece muito acima da capacidade de consumo de seu povo.


De qualquer maneira, a colocação no IDH é o grande trunfo da ditadura cubana, que a usa para rebater as acusações de violação dos direitos humanos. Dificilmente, portanto, haverá uma abertura democrática em Cuba, mas muito provavelmente haverá uma abertura econômica.


Há uns anos, houve um início de abertura econômica em Cuba impulsionada pelo próprio Raúl Castro, que é considerado um dos principais gestores cubanos e tem fama de ter transformado o Exército no organismo mais eficiente e bem administrado de Cuba.


Muitos oficiais treinados em modernas técnicas de gestão estão trabalhando em companhias mistas que tratam do turismo, por exemplo, segundo Frei Betto, para impedir a corrupção e dar a essas empresas eficiência administrativa.


Com o fortalecimento da amizade com Hugo Chávez, e a oficialização de uma ajuda financeira permanente da ordem de U$6 bilhões anuais, Fidel considerou que não havia mais necessidade de tanta abertura econômica, e passou a dificultar mais uma vez a circulação de dólar no país.


Os turistas agora são obrigados e trocar seus dólares ou euros por peso turístico, que tem desvalorização de 20%. Com isso, os que acumulavam dólares à espera de uma abertura econômica tiveram que desovar seus estoques.


Agora, provavelmente Raúl Castro retomará seu projeto econômico de maneira lenta e gradual, inclusive porque já não há mais a certeza de que a ajuda da Venezuela poderá continuar indefinidamente.


Raúl Castro estimula discussões em sindicatos, associações e outras instituições para recolher críticas e sugestões das lideranças populares. Segundo Frei Betto, está sendo processado cerca de 1 milhão de sugestões e críticas.


Lula terá que ter um papel nessa abertura cubana, e, se não assumi-lo, quem vai fazê-lo é Chávez. Na abertura econômica, o Brasil tem papel importante, pode ajudar em vários setores, como na energia. Mas é preciso que o governo brasileiro passe das promessas à prática, reclamam os governantes cubanos.


O que Cuba quer mesmo é que a Petrobras ajude a descobrir petróleo no Golfo do México, o que Lula prometeu na última visita. Mas o que o Brasil quer mesmo é colocar Cuba entre os países do Caribe que servirão de plataforma de exportação do etanol, inclusive para os Estados Unidos.


O problema é convencer Fidel Castro que essa é uma boa estratégia para a ilha, pois ele, para agradar Hugo Chávez, que quer valorizar o petróleo, assumiu uma campanha pessoal contra o uso de alimentos para fazer combustível.


O Brasil pode também atuar diplomaticamente para convencer o governo norte-americano a relaxar o bloqueio econômico, mas a influência de Lula com George W. Bush é maior no momento do que poderá vir a ser com uma futura administração republicana ou democrata.


A oposição cubana se queixa da atuação do presidente Lula. Na primeira visita dele a Cuba como presidente, logo após a crise em que alguns dissidentes que tentaram fugir da ilha foram fuzilados, houve muitas queixas de que Lula não tocara no assunto.


Frei Betto, que era assessor especial da Presidência, garante que Lula conversou com Fidel, que ficou irritado e cobrou dele atuação mais firme na reforma agrária, a favor do MST. Lula e todos os membros do governo que têm uma relação pessoal com Cuba consideram que não devem fazer críticas públicas ao governo cubano, mas sim influir internamente para conseguir avanços.


É uma tática de quem trata com um amigo, e não de Estado para Estado. Essa atitude já produziu fatos não condizentes com o estado democrático, como a entrega dos pugilistas cubanos que queriam ficar no Brasil asilados. Os dois estão banidos do esporte e completamente isolados.

 



Escrito por gilvan.cavalcantidemelo às 12h05
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DEU NA FOLHA DE S. PAULO

 

AMIZADE COLORIDA

Eliane Cantanhêde

BRASÍLIA - "O PSDB e o PT não precisam ser inimigos declarados por toda a vida", disse o tucano Aécio Neves ontem sobre sua amizade colorida com o petista Fernando Pimentel, que gerou um candidato único à sucessão de Pimentel na prefeitura de BH.

Os dois não têm mesmo nada a perder com o apoio conjunto a Márcio Lacerda (PSB), a terceira via, porque nem o PSDB nem o PT tinham candidatos. A aliança em torno do PSB foi uma saída honrosa, além de um investimento.

Se não têm nomes para 2008, Aécio e Pimentel queimam etapas para 2010, ambos como pré-candidatos. Aécio, a presidente; Pimentel, a governador. Um por todos, todos por um -e contra São Paulo.

Lula é a principal força eleitoral, mas não tem sucessor. E José Serra é o principal candidato, mas não tem ainda força eleitoral. Falta-lhe a unidade do PSDB, e a aliança com o DEM pode implodir no confronto Alckmin-Kassab em São Paulo.

Lula tentou encher a bola de Dilma Rousseff, mas ela não voou até agora. Ciro Gomes voltou a desfilar e a dar opiniões por aí, mas ninguém acredita que o PT assimile apoio a um candidato de fora.

Do outro lado, Serra, por ser de São Paulo, ser o favorito e ser acusado de queridinho da mídia, acaba sofrendo o efeito diametralmente oposto: São Paulo é muito mais fiscalizado e criticado do que Minas; quem sai na frente muito cedo apanha por muito mais tempo; e a mídia não perde uma boa chance de demonstrar independência.

Enquanto, por baixo, petistas e tucanos arrancam estrelas e penas uns dos outros, por cima, Lula e Aécio, muy espertos, antes de muy amigos, se preservam e estão obviamente acertando um pacto de não-agressão. No mínimo. Aécio, como o próprio Serra, corre o risco de ficar sonhando com o coração de Lula, que já tem dono. O resultado pode ser dor de cotovelo, além de um bom banho nas urnas.

 



Escrito por gilvan.cavalcantidemelo às 10h46
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DEU NO VALOR ECONÔMICO

CAPITANIA SEM DONATÁRIO
Raymundo Costa

 
O presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, trocou um mandato de quatro anos na Câmara dos Deputados pela presidência do Banco Central, mas é certo que não arquivou os projetos políticos que tinha em mente. Eles foram apenas adiados. No momento, Meirelles está no olho do furacão de uma operação para despejar o senador Marconi Perillo do controle político em Goiás. Mas o êxito da política econômica ficou sem um donatário desde a saída de Antonio Palocci do Ministério da Fazenda, e nada impede que Meirelles pense em retomar os planos que traçara ao final de uma bem-sucedida carreira de executivo financeiro.
 
À época, o projeto passava pelo governo de Goiás, mas a meta principal era a Presidência. Uma campanha milionária fez de Henrique Meirelles, um neófito na política, o deputado federal mais votado de Goiás, em 2002, com mais de 70 mil votos à frente do ruralista Ronaldo Caiado, um nome com muito mais projeção no estado. Eleito pelo PSDB, ele não hesitou em renunciar ao mandato e deixar o partido para atender ao convite de Lula para presidir o BC.
 
Meirelles não aparece em nenhuma relação dos ditos "presidenciáveis" sob a observação de Lula como possíveis candidatos em 2010. No entanto, à exceção talvez de Patrus Ananias, ministro do Bolsa Família, nenhum outro tem tanto serviço prestado para o sucesso do governo, conforme reconhecem hoje mesmo alguns de seus mais severos críticos no passado.
 
Duas notícias que mais tocam a alma petista saíram da equipe econômica: o fim do acordo com o Fundo Monetário Internacional, que fez realidade o slogan de passeata "Fora FMI", e agora o fato de o país dever menos do que tem em divisas, conforme cantado em prosa e verso pelo governo, semana passada. Além disso, é a inflação sob controle que permite ao governo avançar nas políticas sociais tão caras ao petismo.
 
Meirelles costuma negar que tenha projetos políticos em vista. Mas o fato é que não faz nem um ano ele efetivamente se movimentou no sentido de deixar o BC e disputar a prefeitura de Anápolis (GO), que nos seus cálculos e no de correligionários serviria como uma espécie de trampolim para uma candidatura ao governo estadual em 2010.
 
 Meirelles está no páreo de 2010 
 
À época, Meirelles transferiu seu domicílio eleitoral de Goiânia para Anápolis e abriu negociações para se filiar ao PDT. O presidente do partido, Carlos Lupi, deu sinal verde. O líder no Senado, Jefferson Péres, também, em uma conversa realizada no apartamento de Meirelles, no Rio de Janeiro. Ontem como hoje, Péres é um entusiasta da atuação do presidente do BC: "O presidente Lula deve sua reeleição não ao Bolsa Família, como dizem alguns, mas à política do Banco Central".
 
Péres explica: a inflação sob controle mantém o poder de compra da moeda, logo, é o que assegura o sucesso de programas como o Bolsa Família, sem falar de 24 milhões de aposentados que hoje recebem o maior salário mínimo dos últimos 40 anos. Mas o senador desaconselhou a candidatura de Meirelles nas próximas eleições, por considerar que ele, "sem desmerecer Anápolis", está pronto para vôos mais altos.
 
Lula também entrou no circuito, Meirelles desmobilizou sua tropa goiana e todos se voltaram para 2010. No momento, as conversas em curso têm em vista o Palácio das Esmeraldas, sede do governo de Goiás, atualmente ocupado por Alcides Rodrigues Filho, que é do PP, um partido aliado a Lula nacionalmente, mas na prática local associado ao senador Perillo.
 
Perillo é uma espinha atravessada na garganta de Lula. O presidente não perdoa o senador goiano por ele ter dito que o avisou sobre a existência do mensalão, fato que Lula diz nunca ter ocorrido. Durante todo o ano passado, o presidente evitou conversar com Perillo, até dezembro, quando o tucano acenou com a possibilidade de votar a favor da prorrogação da CPMF.
 
Perillo, assim como toda a bancada do PSDB no Senado, votou contra a CPMF. Derrotar Perillo nas eleições, portanto, é quase uma questão pessoal para Lula. Meirelles, se tudo correr como o planejado, pode encabeçar uma chapa que teria um vice do PT e como candidatos ao Senado o prefeito de Goiânia, Iris Resende (PMDB), e o deputado Sandro Mabel (PR). Isso, se Meirelles não vier a achar que cabe nele o figurino que era talhado sob medida para vestir o ex-ministro Antonio Palocci.
 
Raymundo Costa é repórter especial de Política, em Brasília. Escreve às terças-feiras
 


Escrito por gilvan.cavalcantidemelo às 10h40
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A ESQUERDA EUROPEIA

 

Enquanto isso, lá na Europa, a esquerda debate suas raízes , os problemas, a cultura, os caminhos, as experiências e o reformismo.

 

Vejam, abaixo, o programa do evento que ocorrerá em Roma, no próximo mês:

 

SOCIAL DEMOCRACIA EUROPEIA : RAÍZES E PERSPECTIVAS 

13-14 Março 2008
Hotel De la Minerve, Roma 

PROGRAMA 

Quarta-feira 13 Março 2008

15,00 Bem-vindo

15,15 Abertura Observações: Social Democracia como uma cultura europeia

Bo Stråth, Universidade de Helinski

15,30 Social Democracia após a Terceira Via

Coordenador: Ernst Stetter, Friedrich-Ebert-Stiftung
A Terceira Via de Blair : nascimento, valores, limites e legado. Eric Shaw, da Universidade de Stirling

Social Democracia Nordica : A Modernização

Paolo Borioni, Fondazione Istituto Gramsci 

Social Democracia Continental


Detlev Albers, da Universidade de Bremen e membro da Comissão Programa Fundamental do SPD. 

Espanha de Zapatero a González

Antonio Estella de Noriega, Fundación Pablo Iglesias e Universidade Carlos III de Madrid

16,30 Debatedor: Roberto Gualtieri, Fondazione Istituto Gramsci 

17,00 Coffee break (pausa para o café) 

17,30 Bem-estar Social como uma infra-estrutura para a concorrência

Coordenador: Ernst Stetter, Friedrich-Ebert-Stiftung

A abordagem contratual para a reforma do Welfare State
Sergio Beraldo, University of Neaples

Agenda 2010, na Alemanha, na Europa

Michael Dauderstädt, Friedrich-Ebert-Stiftung

 

O processo de Lisboa amanhã

Maria João Rodrigues, conselheira especial do Primeiro-Ministro Português

18,30 Debatedor: Federico Lucarini, Universidade de Macerata 

Sexta-feira 14 Março 2008
 
9,30 Social Democracia e participação

Coordenador: Luciano Vecchi, membro da Presidência do PES 

Organização social-democrata como um problema sociológico

Albrecht Konecny, Secretário Internacional, SPOE 

Sindicatos e Social Democracia ontem e hoje

Mimmo Carrieri, Universidade de Teramo 
 
O Programa do Partido como um instrumento de mobilização desde as raizes

Benjamin Mikfeld
, SPD

Social democracia na Europa Oriental


Sorina Soare, Université Libre de Bruxelles

As PES como um partido europeu e a União Europeia

Carlos Carnero González, membro do Parlamento Europeu


11,00 Discussant: Angelo Bolaffi, Director do Instituto Italiano Cultura, Berlin *

11,30 Coffee Break (pausa)

12,00 Governança Global , elações transatlânticas e multiregionalismo

Coordenador: Giuseppe Vacca, presidente da Fondazione Istituto Gramsci

A estrutura económica de multi-regionalismo

Paolo Guerrieri, Vice-Presidente, Istituto Affari Internazionali

A relação transatlântica e a social-democracia (guerra fria, hoje, amanhã)

Mario Del Pero, Universidade de Bolonha

Reformismo europeu e Estados Unidos.

Will Marshall, presidente, Progressive Policy Institute 

 

O reformismo Europeu e latino-americano

Donato Di Santo, Subsecretário de Estado, Ministério dos Negócios Estrangeiros italiano

13,00 Debatedor: Umberto Ranieri, presidente da Comissão dos Assuntos Externos, Câmara dos Deputados, Itália *

13,30 almoço com buffet

14,30 Mesa Redonda

Coordenador: Angelo Bolaffi, Director do Instituto Italiano Cultura, Berlim

Giuliano Amato, Ministro italiano do Interior, presidente do Comité Científico, Fondazione Italianieuropei

Alfred Gusenbauer, Chanceler, Áustria *

Ed Miliband, ministro do Gabinete Office, Reino Unido *

 



Escrito por gilvan.cavalcantidemelo às 12h47
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DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

 

CUBA, CAMINHOS PARA O CAPITALISMO

Carlos Alberto Sardenberg

Cuba vai cair no capitalismo, como ocorreu com todos os regimes socialistas do século 20, à exceção de dois, o da própria ilha e o da Coréia do Norte. Ambos, aliás, têm um curioso ponto em comum, o comunismo hereditário. Fidel tenta transmitir o poder a seu irmão, Raúl. O presidente Kim Jong-il herdou o governo de seu pai.

A história recente mostra que há, no essencial, três tipos de transição do socialismo para o capitalismo global. O primeiro modelo é o chinês. Também o mais antigo. Dez anos antes da queda do Muro de Berlim, em novembro de 1979, Deng Xiaoping iniciava as reformas econômicas. No Vietnã, a “doi moi” - a renovação - começou em 1986, contemporânea da perestroika russa, mas à moda chinesa.

Nesse processo, o Partido Comunista e o governo comandam a introdução dos investimentos privados, basicamente feitos pelas companhias estrangeiras. É um passo obrigatório para países muito atrasados, sem capital local suficiente, sem tecnologia e infra-estrutura, e também, naturalmente, sem empreendedores privados nacionais. Estes acabam aparecendo no decorrer do processo, que continua, entretanto, com forte base no investimento direto estrangeiro.

Não há democracia política. Essa combinação de ditadura do partido com economia de mercado, que requer a liberdade de empreendimento, obviamente está funcionando na China e no Vietnã. Isso, claro, quando se consideram os indicadores econômicos. Há forte crescimento da produção, da renda e do emprego. Quase 600 milhões de chineses já deixaram a zona da pobreza desde o início das reformas. No Vietnã, o número de pessoas vivendo com menos de um dólar por dia caiu de 50% da população, em 1990, para menos de 10%, hoje.

Não se sabe, entretanto, até onde vai o modelo, na medida em que a população enriquece, torna-se classe média, com acesso cada vez maior à educação e progressivamente exposta ao mundo das democracias ocidentais. Pode ser que ocorra algo como o que se passou na Coréia do Sul, cuja arrancada para o desenvolvimento também se deu com uma ditadura política, embora não comunista. O país alcançou a democracia há pouco tempo, por pressão das classes médias formadas no processo econômico. Mas a China é muito maior, mais complexa, e a ditadura, muito mais forte. A ver.

O segundo modelo é o da Europa do Leste: Polônia, República Checa, entre outros. A virada é completa, com a introdução simultânea do capitalismo e da democracia política - aliás requisito para a entrada na União Européia. Não há caça às bruxas contra os quadros do velho regime, mas estes precisam se reagrupar, formar novos partidos e assim voltar à disputa política. Não raro, ganham eleições para governar no novo sistema. Vão bem esses países, sobretudo os que já conseguiram sua integração à União Européia.

O terceiro e pior modelo é o da falecida União Soviética. O pessoal do partido ficou com as maiores estatais privatizadas e as melhores oportunidades de negócios, tudo a preço de banana roubada. E também manteve o poder político no novo regime, chamado de democrático, com eleições nacionais, mas sem imprensa livre e sem liberdade partidária. O melhor exemplo disso é o presidente Vladimir Putin, ex-chefe da polícia secreta soviética. Como notaram observadores: os russos estragaram o socialismo e agora estão estragando o capitalismo. Acontece da mesma forma em algumas ex-repúblicas soviéticas.

E Cuba depois de Fidel? Trata-se de uma ditadura extrema e cruel. Sem liberdade de imprensa, é muito difícil obter informação sobre o que se passa por lá. Mas é possível garimpar impressões aqui e ali, de visitantes, por exemplo, ou de pessoas que têm parentes na ilha, chegando a um quadro aproximado da realidade. Essas impressões contam que Fidel Castro, nos últimos anos, parecia preocupado com as chances de continuação do socialismo depois de sua morte. Esse teria sido o motivo do lançamento da Batalha de Idéias, destinada a fazer a cabeça especialmente dos jovens. Esse também é seu objetivo atual com os artigos de doutrinação no Granma.

Já entre os líderes que estão substituindo Fidel, parece que a preocupação maior é como controlar uma inevitável transição para algum tipo de capitalismo. Conta-se que Raúl Castro sonha com o modelo chinês e teme especialmente a transição estilo Leste Europeu.

E a população cubana, qual seria seu estado de espírito? Aqueles mesmos jornalistas estrangeiros, visitantes, diplomatas ocidentais e parentes de residentes dizem que se pode perceber um sensação de enfado, um cansaço com o regime e a vida difícil, na qual todo santo dia é preciso preocupar-se em obter comida e bens essenciais.

É difícil avaliar se esse sentimento pode se transformar numa revolta, após a partida de Fidel. Amigos de Fidel e de Cuba dizem que não há a menor chance de isso acontecer. Afirmam que a população não apenas respeita, mas admira os líderes.

Também é difícil avaliar se isso é correto. É certo, de todo modo, que, mesmo após a aposentadoria de Fidel, os sucessores manterão a repressão, o controle dos passos e das idéias da população.

Parece uma ditadura forte, mas, quando se recorda como os regimes comunistas europeus, aparentemente sólidos, caíram como folhas de papel, essa hipótese para Cuba não pode ser descartada.

Mas a transição no Caribe depende de um fator específico: a comunidade dos cubano-americanos instalada ali ao lado, na Flórida, com dinheiro e disposição para investir numa Cuba pós-Fidel. A atitude política dessa comunidade pode estabilizar ou atrapalhar a transição - tema de uma próxima coluna.

*Carlos Alberto Sardenberg é jornalista

 



Escrito por gilvan.cavalcantidemelo às 12h36
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DEU NA FOLHA DE S. PAULO

 

"FLEXISSECURIDADE" E ESTADO SOCIAL

Luiz Carlos Bresser Pereira

DESDE OS anos 1980, está em discussão a crise do Estado social, porém o que está ocorrendo não é propriamente crise, mas transformação. De um lado, a decisão da Nokia de transferir para a Romênia uma fábrica que empregava 3.000 pessoas na Alemanha e as reformas trabalhistas que os países europeus realizaram para baratear sua força de trabalho e evitar deslocalizações desse tipo mostram que o Estado social está sendo desafiado. De outro lado, porém, o aumento da carga tributária nos países europeus mais avançados, principalmente no Reino Unido, para financiar o aumento dos gastos sociais do Estado, especialmente nas áreas da saúde, da educação e da previdência, significa que o Estado social está se fortalecendo.


O nome dessa mudança aparentemente paradoxal foi dado pelos países escandinavos, sabidamente os países que melhor lograram combinar o desenvolvimento econômico capitalista com o atendimento das demandas socialistas de maior igualdade ou justiça social.
Chama-se "flexissecuridade" e se define por uma redução dos direitos trabalhistas, particularmente dos obstáculos à demissão de pessoal, combinada com um aumento compensatório da segurança do trabalhador e de seus salários indiretos por meio do aumento da carga tributária e dos gastos sociais.

A onda ideológica neoliberal dos últimos 30 anos tinha como objetivo a volta ao Estado liberal -a uma forma de Estado que não assegurava direitos trabalhistas nem fornecia serviços sociais gratuitos a toda a população. A tentativa fracassou no segundo ponto, já que o tamanho do Estado medido em termos de carga tributária em relação ao PIB aumentou, ao invés de diminuir; e só foi bem-sucedida no primeiro porque as condições da concorrência internacional vêm obrigando os países ricos a flexibilizar os salários diretos. Por meio da flexibilização, esses países aumentam sua competitividade internacional e diminuem as taxas de desemprego. Mas, em compensação, adotam políticas que aumentam o tempo do seguro-desemprego, e, mais amplamente, todos os serviços sociais e científicos, tornando gratuita ou quase a saúde pública, a educação e os demais gastos voltados para o consumo coletivo e igualitário. Um governo na Europa estará mais à direita ou à esquerda à medida que essa compensação for menor ou maior.

Entre os países ricos, a "flexissecuridade" ocorreu principalmente nos europeus porque tinham um Estado social a defender. Nos Estados Unidos, não havia muito a reduzir em termos de direitos trabalhistas e não houve aumento da despesa social. No Brasil, ainda que tenhamos desde os anos 1940 um razoável índice de proteção ao trabalho (melhor do que nos Estados Unidos), não houve redução dos direitos trabalhistas, porque os salários aqui crescem no médio prazo menos do que a produtividade devido às migrações internas que implicam uma oferta ilimitada de trabalho. As migrações internas aqui fazem o papel da imigração nos países ricos. Os gastos sociais, por sua vez, não baixaram; pelo contrário, aumentaram, porque a construção do Estado social por meio do aumento dos gastos sociais foi a forma acordada na transição democrática para corrigir em parte os baixos salários e a distribuição desigual da renda existente no país. Aqui, como na Europa, o Estado social é uma conquista democrática.

LUIZ CARLOS BRESSER-PEREIRA , 73, professor emérito da Fundação Getulio Vargas, ex-ministro da Fazenda, da Reforma do Estado e da Ciência e Tecnologia, é autor de "Macroeconomia da Estagnação: Crítica da Ortodoxia Convencional no Brasil pós-1994".



Escrito por gilvan.cavalcantidemelo às 10h54
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MIL FACES

Valdo Cruz

BRASÍLIA - Não é de hoje que o presidente Lula exercita seu lado teatral. Adora interpretar várias personagens ao mesmo tempo. Nos últimos dias, mostrou que está em forma na arte da ilusão.

Ato 1: em solenidade no Palácio do Planalto, Lula foi só elogios a Matilde Ribeiro. Disse que a ex-ministra da Igualdade Racial não cometeu nenhuma grande irregularidade, só erros administrativos.

Pois bem, esse é o Lula bonzinho. Aquele que adora passar a mão na cabeça de seus auxiliares flagrados em situações desabonadoras.

Não é o mesmo presidente que, nos bastidores, orientou sua equipe a divulgar que Matilde havia cometido falhas que não lhe deixavam outra saída senão pedir demissão do cargo.

Ato 2: Lula costuma dizer que defende a liberdade de imprensa, que é, inclusive, fruto dela. Só que o mesmo ator defendeu como natural a ação orquestrada de uma igreja contra a imprensa, destinada a intimidar jornalistas como Elvira Lobato. Sem falar que, reservadamente, costuma dizer coisas ainda piores sobre a mídia.

Ato 3: Lula está por aqui com a oposição. Mantém-se intransigente diante dos apelos de ceder aos tucanos a presidência da CPI dos Cartões Corporativos. Quer uma comissão totalmente dominada pelos parlamentares governistas.

Só que o petista adora o papel de quem está acima dessas briguinhas do Congresso, de quem não teme CPIs. Aí manda dizer que não vai interferir na disputa. Foi assim na CPI dos Correios. A mesma encenação se repete.

Interpretações como essas são recorrentes durante o mandato do petista. Ainda bem que seu melhor desempenho teatral está na economia. Nesse cenário, consegue ser mais fiel ao roteiro antes, durante e depois de abertas as cortinas.

Fora uma rata aqui, outra ali, no palco da economia Lula sempre veste o figurino do pragmático e conservador, rejeitando o ilusionismo. Saiu-se melhor. Nos outros papéis, deixa a desejar.

 



Escrito por gilvan.cavalcantidemelo às 10h45
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DEU NO JORNAL DO BRASIL

 

AGENDAS, PARLENDAS, CONTENDAS E CALENDAS

Ubiratan Iorio

O leitor pode imaginar a mesmice que seria um campeonato de futebol disputado sem um regulamento que determinasse como seria a contagem de pontos, se haveria turno e returno, ou jogos eliminatórios, ou que não estabelecesse os critérios de desempate? O mínimo que podemos pensar é que não passaria de um conjunto de jogos amistosos, em que as equipes não teriam objetivos maiores a serem perseguidos, a não ser exibir-se para a torcida e, se possível, vencer os jogos... Pois as eleições em nosso país são assim: confraternizações realizadas a cada dois anos, em que os partidos entram na contenda sem terem previamente estipulado uma indispensável agenda, em termos de programas coordenados de ação a serem seguidos em caso de vitória.

Não é por outro motivo que, entra governo e sai governo, a essência das coisas não muda e o cidadão continua sendo explorado pelo Estado: se for da chamada classe média, por uma brutal e estúpida carga tributária; se for empresário, pela mesma extorsão fiscal e por encargos que transformam a sobrevivência de seu negócio em ato de heroísmo; e, se for pobre, pela crueldade das filas em hospitais e postos de saúde, pela maldade de um sistema educacional que é um dos piores do mundo, pela perversidade da falta de saneamento, pela iniqüidade de um vetor de transportes que é um exemplo de ineficiência e pela malvadeza aterrorizante da violência, entre outras constatações que povoam nosso cotidiano.

Mas ano de eleições é sempre repleto de promessas e juras de amor aos eleitores. A maioria dos candidatos, naquele ridículo horário gratuito que nos é pespegado e apresentado como um hino à democracia - quando, na verdade, é um debochativo desfile de mentiras anunciadas - apresenta a mesma parlenda (conversa fiada): menos impostos, melhorias na saúde, educação, habitação, saneamento e transportes, mais empregos e combate à violência. Quero crer que alguns até sejam sinceros, mas, como não há partidos com agendas programáticas mínimas, que sejam claras para o eleitor e esbocem pelo menos amostras da doutrina abraçada pela agremiação e, mais do que tudo, que sejam cumpridas à risca em caso de vitória eleitoral, as eventuais boas intenções não têm como germinar. Um exemplo de desrespeito às doutrinas é o do próprio PT, que, na oposição, rugia contra a ortodoxia do Banco Central, bradava contra a dívida interna e clamava contra a flexibilidade cambial, e que vem fazendo tudo ao contrário (para a sorte do país) do que pregava.

Como confiar em um sistema político carente de preceitos, que torna pardos todos os gatos e que conduz os eleitores - em sua maioria, desprovidos de condição intelectual de análise - a votarem em pessoas e não em idéias, a escolherem pelo carisma individual, sem perceberem o sofisma geral? Somos, infelizmente, um país sem idéias, em que prevalece sempre o empurrar com a barriga, em detrimento do matutar com o cérebro!

Enquanto isto não mudar - e é um caminho difícil, porque requer muito tempo, exige alterações culturais que só serão atingidas mediante atenção para com a qualidade da educação - continuaremos a dar voltas em círculos, sem chegar ao futuro que - dizem - a História nos reserva.

A agenda para o conserto desse verdadeiro manicômio de idéias desencontradas deve começar por uma reforma política que valorize a doutrina de cada agremiação, seja qual for seu matiz ideológico e que puna o toma-lá-dá-cá das negociatas por apoios em troca de cargos, de que já estamos fartos. Deve prosseguir com o estabelecimento claro de quais devem ser as funções do Estado, para que, uma vez fixado o seu "tamanho" e, conseqüentemente, quanto nos vai custar, se quantifique o montante de receitas para que possa funcionar. A partir disto - e somente a partir disto! - é que se poderá realizar uma reforma tributária profunda, ao mesmo tempo capaz de desonerar a produção, incentivar o emprego e manter o poder público. Deve contemplar, evidentemente, uma atenção maior para com o federalismo, ou seja, promover a descentralização política, econômica e administrativa, retirando a concentração de poder de Brasília e espargindo-o entre Estados e municípios, porque isto gerará enormes ganhos de eficiência, em benefício de todos.

O leitor vislumbra alguma dessas reformas? Não é pessimismo, é pura lógica: sem agendas, não importam as parlendas nem quem vença as contendas, o Brasil vai ficando para as calendas...

 



Escrito por gilvan.cavalcantidemelo às 10h37
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DEU NO VALOR ECONÔMICO

A PROPÓSITO DE FIDEL CASTRO
Fábio Wanderley Reis
 
O afastamento de Fidel Castro, como quer que deva ser analisado de diversos pontos de vista, tem certamente significado simbólico. Ele aponta para o fim de uma singular experiência revolucionária no hemisfério, que, não obstante o que aparece como sobrevida melancólica nas condições de hoje, ao nascer incendiou romanticamente a imaginação de muitos de nós e nos mobilizou. Eram os tempos provavelmente mais quentes da Guerra Fria, e a fantasia de uma alternativa socialista e revolucionária atraía muitos jovens generosos, estimulados agora pela visão sartriana de um furacão benigno sobre Cuba, protagonizado igualmente por jovens abnegados e heróicos. A movimentação resultante concorreu, naturalmente, para que o processo político brasileiro desaguasse no desastre de 1964, enquanto em plano mundial se evidenciava a face bárbara da experimentação com o socialismo e se engendrava a dinâmica que terminaria por inviabilizá-lo. Felizmente, as circunstâncias do presente permitem quando nada evocar com bom humor algo do clima do imediato pós-Revolução Cubana - e quem sabe procurar refletir de novo sobre importantes e perenes temas políticos.
 
 Fidel, Betinho, Lacerda e mercado 
 
Pessoalmente, lembro um par de eventos vividos como estudante em Belo Horizonte, que talvez mereçam ser compartidos com os leitores. O primeiro é um julgamento da revolução promovido pelo Diretório Central dos Estudantes da UFMG, em que Sepúlveda Pertence, o hoje ex-ministro do STF, atuou galhardamente como advogado de defesa - infelizmente, sem condições de opor-se com exito à oratória flamejante de seu colega da acusação (cujo nome lamento não ter retido), o que levou os organizadores a intervirem às pressas na composição do corpo de jurados, de modo a garantir a decisão "correta". O outro é a patuscada, na ocasião do episódio da Baía dos Porcos, de uma suposta visita de Fidel e Guevara a BH, anunciada por alto-falantes pelas ruas da cidade e culminando em reunião "popular" de protesto na Praça 7, intervenção policial e pancadaria generalizada - e fechando, para mim, com a imagem de Betinho José de Souza, um dos organizadores da coisa, a proteger a saúde de hemofílico escondido, como eu, com seu riso de bruxa, num café das vizinhanças.
 
Do ponto de vista das idéias, a questão crucial seria a de como a motivação generosa (ligada mesmo à intensa religiosidade no caso de muita gente) se combinava com a aceitação da violência revolucionária. Além do caráter com frequência abstrato e irrefletido dessa aceitação (o que não impede que alguns do meu círculo tenham chegado a morrer violentamente no pós-64), seu apoio era a visão da violência e da injustiça contidas no próprio "sistema" que se tratava de combater: uma última violência para pôr fim à violência. Essa perspectiva, que remonta a ideólogos da Revolução Francesa e é apropriada por teóricos socialistas, na verdade encontrava espaço também no discurso da "direita" brasileira. Lembro, por exemplo, um artigo notável de Carlos Lacerda na "Tribuna da Imprensa", na década de 1950, sob o título de "Crianças Mortas", em que a corrupção e a incompetência eram assimiladas de forma candente à violência banal da morte cotidiana de crianças brasileiras: "são crianças mortas, são crianças mortas, são crianças mortas!", dizia o brado final que me ficou na lembrança e que tende, obviamente, a deslegitimar a resistência a qualquer ação (quem sabe o golpe) que se oponha à situação denunciada. Talvez cheguemos, com os gulags e a nossa própria experiência com as longas ditaduras latino-americanas, ao aprendizado real, de parte a parte, da impossibilidade de admitir a violência, tanto mais tentando em seguida limitá-la - enquanto vivemos a ironia trágica de vê-la multiplicar-se em formas que se ligam de maneira complexa com o mundo da política.
 
E que dizer do socialismo a esta altura? Creio que o ponto central, de um ângulo filosófico ou doutrinário que a análise empírica das experiências havidas corrobora, é o de que, se queremos autonomia individual e liberdade, não cabe abrir mão delas na decisiva esfera econômica, vale dizer, prescindir do mercado e confiar as decisões centralizadamente ao Estado. Mas julgo apropriado ter em mente que isso não redunda em declarar superado de vez o socialismo como tal, entendido em termos que dão a devida ênfase a um ideal de solidariedade e convergência. Talvez se possa sonhar com o que há muito tem sido chamado de "socialismo de mercado", que tomou formas novas em discussões recentes. Um exemplo é "A Future for Socialism", de John Roemer, que concebe um socialismo em que empresas regidas por formas flexíveis de propriedade, mas baseadas em títulos controlados publicamente e submetidos a restrições quanto à possibilidade de herança, seriam geridas de maneira competitiva por administradores contratados, tal como ocorre atualmente com as grandes corporações privadas do capitalismo. Claro, há a questão da viabilidade da colocação em prática de idéias como essas, que poderia acabar levando de volta a indagações sobre a eventual necessidade de violência revolucionária. Mas não é preciso voltar a isso. Afinal, há importante diversidade, além de fluidez ou movimento, no âmbito do próprio capitalismo, com as diferentes modalidades de "welfare state" e do correspondente jogo político-partidário. E é perfeitamente concebível que uma Suécia, por exemplo, venha, sem traumas, a dar passos que a aproximem do modelo de um socialismo de mercado. Naturalmente, se é preciso virar Suécia ou assemelhado, o caminho é difícil.
 
Fábio Wanderley Reis é cientista político e professor emérito da Universidade Federal de Minas Gerais. Escreve às segundas-feiras
 


Escrito por gilvan.cavalcantidemelo às 10h29
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DEU NO CORREIO BRAZILIENSE (ONTEM)

UM LUGAR NA HISTÓRIA

Luiz Carlos Azedo

O Código napoleônico, inspirado nos direitos Romano e Justiniano, nos assegurou direitos civis baseados na pessoa, na propriedade e na aquisição de propriedade, sem os quais a atual ordem mundial seria impossível

Um dos maiores conquistadores que o mundo conheceu foi o Gengis Khan (1162-1227), que unificou os mongóis, atravessou a Grande Muralha e conquistou a China, estendendo depois seu império até a Pérsia, a Turquia, a Rússia e a Ucrânia. Seus filhos e netos conquistariam mais tarde a Síria, a Indochina, a Sibéria, o Afeganistão, o Paquistão e uma parte da Índia. O poderio de Gengis Khan é atribuído ao seu gênio militar e à Horda Dourada, o formidável exército de arqueiros turcos montados, capazes de acertar uma flecha a 500 metros, que foi a mais temível artilharia ligeira da época.

Gengis Khan, cujo nome significa “imperador do mundo”, é um dos grandes personagens da Era Cristã, mas seu império desmoronou porque não foi capaz de constituir instituições sólidas. Nômades, os generais de Gengis Khan eram dominadores brutais — mataram mais de um milhão de persas — e viviam de uma economia adequada à manutenção de seus exércitos (a pecuária e o saque), mas que levou seus kanatos sedentários a um beco sem saída histórico. Boa parte dos violentos conflitos étnicos nas sinuosas fronteiras do Oriente tem origem nesses antigos domínios. Os mongóis acabaram voltando aos territórios de origem, onde cultuam Khan e preservam seus costumes tribais.

Sujeitos

A lembrança de Gengis Khan vem a calhar por causa da aposentadoria de Fidel Castro, que é o último grande líder comunista vivo. O “culto à personalidade” por parte dos comunistas é uma invenção de Stálin, cujo prestígio foi construído por meio de violenta repressão aos adversários e graças à espetacular vitória do Exército Vermelho na II Guerra Mundial, depois de heróica resistência em Stalingrado (antiga Tsaritsin, hoje Volgogrado). O “culto” também serviu para consolidar o poder de líderes como Mao Tse Tung (China), Ho Chi Min (Vietnã) e Kim Il Sung (Coréia), mas não deixou instituições sólidas.

Na literatura marxista, as forças motrizes da História são o desenvolvimento das forças produtivas (a economia) e a luta de classes (o movimento social), os líderes têm um papel relativo nas revoluções (a mudança institucional). Na propaganda oficial comunista, porém, nada aconteceria sem um “guia genial”. É o caso de Fidel Castro em Cuba. Será? A França no fim do século XVIII precisava substituir suas velhas instituições políticas por outras que se harmonizassem mais com o novo regime econômico. Seus homens públicos mais eminentes e úteis foram aqueles que contribuíram para isso.

Processos

Robespierre, por exemplo, no período jacobino da Revolução Francesa (1889-1899), era um homem insubstituível. Porém, se tivesse morrido num acidente, seria substituído por outro menos capaz para aquele momento, mas os acontecimentos teriam tomado o mesmo rumo. A necessidade histórica exigia que novas instituições e um novo regime assumissem o lugar da arcaica e obsoleta monarquia absoluta dos Bourbons. A História é um processo, não é um sujeito.

Como explicar o papel dos jacobinos sem considerar a força da revolução? Foi a entrada em cena de milhões de pessoas que deslocou temporariamente a burguesia do poder. Quando a fúria da pequena-burguesia na Convenção não pôde mais ser contida, a própria dinâmica interna do processo abriu o caminho para a o deslocamento de seu apoio dos jacobinos para os republicanos radicais, até resultar no golpe de estado do Diretório patrocinado pela burguesia financeira, que acabou por levar Napoleão Bonaparte ao poder em18 Brumário.

Instituições

Com licença para a comparação, a diferença entre Gengis Khan e Napoleão Bonaparte não está no gênio militar, nem na extensão das conquistas territoriais, mas no legado que deixaram. Ao contrário de Bonaparte, Khan morreu invicto, porém não nos legou nenhuma instituição relevante. Já o Código Napoleônico, inspirado nos direitos Romano e Justiniano, nos assegurou direitos civis baseados na pessoa, na propriedade e na aquisição de propriedade, sem os quais a atual ordem mundial seria impossível. O exemplo vale para Fidel Castro, que deixa o poder num momento em que Cuba vive um beco sem saída político-institucional. Seu futuro é uma incógnita. A propósito, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, cujo carisma é indiscutível, já garantiu seu lugar na história, mas ainda nos deve reformas que tirem o país do atraso institucional.

 



Escrito por gilvan.cavalcantidemelo às 10h22
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DEU NA FOLHA DE S. PAULO /MAIS!

 

MORALIDADE MIÚDA

José Arthur Giannotti

Novos modos de convívio social e político aboliram as formas paradigmáticas de existência; modelos de sucesso se tornam as metas a atingir

Pode surpreender que as pessoas comuns se escandalizem com a compra de tapioca ou de um saca-rolha usando cartão corporativo e nem se importem com as grandes tramóias que se armam na composição do orçamento do país ou com os ganhos gigantescos dos bancos operando em território nacional.

Não se trata, a meu ver, de perseguir os detalhes deixando o grosso na escuridão, mas de um exemplo muito interessante de como hoje em dia funciona o juízo moral.
Vivemos uma experiência moral muito diferente daquelas do passado. Em primeiro lugar, como já insistia Michel Foucault [filósofo francês, 1926-84], cada vez mais deixamos de seguir códigos sistematizados no cuidado de nós mesmos para, em vez disso, tratar de agir de acordo com uma estética da existência.

Não estou muito convencido dessa moralidade estética, em que cada um trataria antes de tudo de configurar sua subjetividade, pois o abandono de códigos sistemáticos não implica deixar de lado o problema crucial de saber como seguimos normas morais, por conseguinte como negociamos melhor com as regras.

Ora, esse melhor não diz respeito apenas a um sujeito, mas igualmente a uma coletividade, que trata de lidar com as normas segundo padrões intersubjetivos e idealizados. Não cuidam para que as normas, por exemplo, não sejam aplicadas como se fossem uma guilhotina? Em resumo, trata-se de ir além da biporalidade do bem e do mal, evitando a permissividade, mas procurando encontrar formas de convivência mais ricas e produtivas do que aquelas vigentes no mundo cotidiano.

Fim do tipo

É notável que, nessa procura de novas formas normativas de convivência, desaparece o tipo, uma forma sui generis de sujeito exemplar. De Aristóteles a Kant os filósofos costumavam mostrar que a ação moral, sempre vindo a ser para os seres humanos, se reportava a um sujeito típico, alguém que se pusesse como fim em si mesmo.
Podia ser ele um Péricles, um santo ou uma pessoa que se mostrasse digna de ser feliz, mas sempre alguém capaz de alinhavar suas virtudes numa totalidade harmônica acima das vicissitudes do mundo.

Hoje não vejo tipos no horizonte atual, alguém que encarne uma forma paradigmática de existência. Um jovem que abandonava sua casa para seguir são Francisco imitava o mestre, mas de tal modo que buscava antes de tudo a salvação de sua alma.
Suas ações seguiam aquelas do santo, mas haveriam de abrir para a ele mesmo o caminho do céu. Por isso suas virtudes se alinhavavam em vista de um ideal comum, que, embora não estando nesse mundo, regulava a conduta cotidiana.
Desse modo, o tipo funcionava como maneira de mostrar que a vida espiritual poderia ser exercida neste vale de lágrimas.

Em contrapartida, à minha volta só vejo agora, se tiver sorte, tipos de virtudes: esse indivíduo que se sobressai por ser justo, aquele, por ser bravo, aquele outro, por ser temperado e assim por diante. Noutras palavras, é possível agir tendo o bravo como paradigma, mas sendo conivente com seus atos injustos; imitar o sábio sem esperar ter sua coragem e assim por diante. Importa cada um cuidar de si desenvolvendo uma virtude regional, um aspecto de sua personalidade.

O tipo é passagem para um mundo do dever ser, passaporte para uma coletividade alinhada pelas virtudes espirituais de seus membros. Quando nos tempos de hoje as tipologias morais se desmoronam, os exemplos de virtude são desse mundo, tal como ele é e sempre será. Em vez do santo ou da pessoa ilibada temos o célebre. Por todos os lados não se assiste ao culto de celebridades?

A tal ponto que os religiosos, aqueles que precisamente deveriam ser condutores para uma vida do espírito, tratam antes de tudo de celebrizar-se rezando ofícios espetaculares, vestindo roupas caríssimas, viajando como celebridades políticas.
Nessas condições, não é estranhável que chefes de igreja possam estar cumprindo no exterior penas por lavagem de dinheiro e continuarem despertando êxtases em multidões.

Novo homem?

Parece-me que essa desmontagem dos tipos deve ter algum elo com a desmoralização do legislador revolucionário. Sabemos que políticos da Revolução Francesa, imaginando que o mundo estivesse vazio depois da queda da República romana, pretenderam vestir a toga do legislador, encarnando ideais republicanos.
E muito desses intelectuais, obviamente de origem pequeno-burguesa, trataram de agir politicamente como se fossem planejadores de uma nova era e de um tipo de ser humano. Um novo homem haveria de nascer das mãos de um Saint Just, de um Robespierre, e, na seqüência, de Lênin, Stálin, Mao, Fidel e -é horrível dizer- de um Hitler. Terminando a era das revoluções, também não terminaria a predominância moral dos tipos?

Hoje em dia importa antes de tudo, em vez de legislar, em vez de conformar o homem do futuro, ser um vencedor globalizado como o capital. E, para vencer, nada melhor do que imitar os vitoriosos.

Nesse panorama, o político ocupa posição moral muito particular. É de esperar que seja um célebre empreendedor, fiel na defesa dos seus representados. Poucos, entretanto, jurarão por sua honestidade e por sua fidedignidade. Haverá de ter uma virtude, mas as outras somente se forem necessárias para o sucesso da carreira política. Daí importar-lhe mais a imagem do que uma forma exemplar de dever ser.
Assim sendo, suas ações perdem qualquer dimensão normativa explícita. Não age mais tendo em vista um ideal de ser humano; no máximo imagina poder implantar algumas obras e instituições virtuosas. A imitação não normatiza.

Na medida em que o político deixa de legislar tendo em vista um tipo de ser humano, atuando tão-só pensando nos futuros proveitos de suas ações, passa a ver o passado como um campo de experiências a ser explorado pelo que ele é.
Convém então imitar o bom sucesso e, sempre que possível, fazer ignorar o exemplo passado para que ele se apresente como exemplar. O político se transforma então num engenheiro inventor sem nenhuma preocupação com o sentido de uma vida coletiva.

Crise congelada

Quando o político se pensava como estrito legislador, fazia da moral um dos principais eixos de sua pregação. Quando se transforma num célebre caçador da vitória a todo custo, no máximo promove uma das virtudes: um é fazedor, outro, justiceiro, outro, ainda, um pacificador. Cada um entra no jogo político com seu capital, com sua celebridade diferenciada, mas o próprio jogo, se não procura o sentido da vida, é bem capaz de pô-la em risco.

Não é por isso que, nas condições normais, a política é vista como uma das profissões mais desprezíveis, já que descuida do sentido global de nossas ações, enquanto durante uma crise é aquela mais prezada, apresentando-se como a vida salvação?

Vivemos numa situação de crise congelada. Talvez não venha a ser por isso que ser um tipo moral importa tão pouco ao político? Célebres criminosos não fazem política até mesmo dentro de prisões de segurança máxima? Os bons e os maus são acolhidos no show das celebridades e, depois de começada a festa, vale quem tiver mais poder. Ora, não se imagina o poderoso sendo pego com a mão na boca da botija.

Quando isso acontece no miúdo, são fajutos seu poder e sua celebridade.

JOSÉ ARTHUR GIANNOTTI é professor emérito da USP e coordenador da área de filosofia do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento. Escreve na seção "Autores", do Mais! .



Escrito por gilvan.cavalcantidemelo às 10h41
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DEU EM O ESTADO DE S. PAULO /ALIÁS

 

POR UM POPULISMO MAIS AUTÊNTICO

Fábio Wanderley Reis*

A origem de Lula lhe confere uma aura popular. Só falta ele se comprometer com a democracia

Pesquisas de opinião voltam a mostrar forte e crescente apoio a Lula e a intrigar muita gente: a que se deverá? O notável no espanto suscitado é o destaque freqüente de que o apoio ocorre “apesar dos cartões corporativos”. Se denúncias como as do mensalão não conseguiram impedir a grande vitória de Lula em 2006, caberá mesmo esperar que o artificialismo do escândalo da tapioca venha a abatê-lo aos olhos do eleitorado? Afinal, não obstante a crise da economia estadunidense e as ameaças resultantes, o País se vê inundado de boas notícias no plano econômico, com aspectos como os da renda crescente, do crédito mais acessível e do crescimento do emprego, que não podem senão reforçar, em termos de apoio popular ao governo, os efeitos do êxito da política social em geral. É elementar reclamar que o uso dos cartões corporativos ou de contas “B” seja apropriadamente fiscalizado, com os abusos neutralizados e punidos; mas é inegável o que há de excesso por parte da imprensa e de jogo político por parte da oposição no alvoroço do momento sobre o assunto.

A avaliação de dados como os da pesquisa CNT/Sensus de agora se vê fatalmente envolvida por algo que surgiu com força inédita na eleição presidencial de 2006: a intensa correlação entre o apoio a cada um dos dois principais candidatos e a posição socioeconômica dos eleitores, em que crescem os votos de Lula e minguam os de Alckmin à medida que se desce nas escalas de renda e educação. Com as projeções regionais dessa correlação, tivemos, na verdade, análises em que se insinuava a desqualificação do eleitorado lulista - e, especialmente no azedume anti-Lula de certa “opinião pública” que há muito povoa a internet de vídeos sarcásticos, a contestação ao menos latente da própria legitimidade da presença de Lula na Presidência.

Isso ecoa um tema insistente nos debates acadêmicos sobre o processo político-eleitoral brasileiro, o da suposta “volatilidade” do eleitor. Mesmo se se destacam os erros da idealização do eleitorado popular e a relevância política das deficiências intelectuais que nossa desigualdade lhe impõe, os resultados de estudos sistemáticos não justificam falar de volatilidade, que, naturalmente, fatos como a fidelidade aparentemente duradoura a Lula também negam. Por certo, o eleitor pode mostrar-se consistente, em vez de “volátil”, por melhores ou piores razões: desde a avaliação informada e sofisticada das opções oferecidas pelo jogo político-eleitoral, em sua correspondência com interesses ou mesmo valores de maior importância, até a percepção míope de ganhos mais ou menos imediatos ou de vagas afinidades em termos de identidades definidas toscamente, como as que contrapõem “pobres” e “ricos”. Será com certeza possível fazer melhor democracia quando se tenha a sofisticação intelectual como característica do eleitorado em geral; mas é patente que precisaremos então de condições sociais de maior igualdade, e a questão aí envolvida, a da redistribuição, é a questão crucial em jogo na própria democracia eleitoral onde quer que se dê. A correlação mencionada entre o voto e a posição socioeconômica dos eleitores não é senão a expressão disso - e o que merece destaque a respeito é antes o fato de que os desdobramentos intelectuais e sociopsicológicos de nossa desigualdade tenham impedido por tanto tempo que ela ocorresse com nitidez.

Essa perspectiva pode ser ligada a eventos político-eleitorais do momento no plano continental. Experiências como as de Chávez, Morales e Correa têm sido tratadas como correspondendo a uma nova onda de populismo na América Latina (“populismo carismático”, dizem alguns), e Lula, apesar da política econômica realista, entra talvez na mesma categoria. A imagem negativa do populismo se liga ao componente de manipulação e fraude que supostamente o caracteriza, envolvendo especialmente acenos redistributivos “irresponsáveis”. Mas, além do perigo de que se acabe por assimilar a política “responsável” à mera insensibilidade à desigualdade, é possível assinalar que velhas discussões do populismo, como as do sociólogo argentino Torcuato di Tella, vinculam esse elemento de fraude ao fato de que os líderes que classicamente acenam ao povão no populismo latino-americano têm sua origem na “elite”.

Daí decorre a possibilidade de tomar como tipo especial um populismo de líderes populares, talvez menos propenso à fraude ao menos no que se refere ao compromisso com a redistribuição. À parte excessos como os de um Chávez na Venezuela, esse populismo mais “autêntico” poderia representar uma via talvez propícia a avanços da própria democracia, como sugere o fato (constatado pelo Latinobarômetro e tratado como “paradoxal”) de que justamente Bolívia, Venezuela e Equador se tenham situado em 2007 entre os países de mais alto apoio popular à democracia, logo atrás de Costa Rica e Uruguai, tradicionais campeões. No Brasil, é de se lamentar, naturalmente, que as revelações de 2004 e 2005 tenham resultado em desacoplar o difuso simbolismo popular que cerca o lulismo (sem embargo das limitações que se queira apontar em Lula como líder) da construção institucional peculiar que parecia ocorrer em torno do PT e acabou seriamente comprometida.

Mas cabe olhar mais longe, para os Estados Unidos e a reveladora campanha eleitoral em curso. Pois encontramos lá também o rótulo de “populismo” aplicado sem hesitação, mesmo por analistas qualificados, às propostas dos pré-candidatos democratas com respeito à universalização do seguro saúde (algo, afinal, que pode ser visto como um direito a compor de modo banal a idéia de cidadania tal como evoluiu na dinâmica democrática de vários países exemplares). Sem falar do carisma pessoal de Barack Obama a mobilizar o eleitorado como há tempos não se via - e a justificar, para muitos, a expectativa não só de avanços numa óptica redistributiva, mas também de arejamento e revitalização das próprias instituições democráticas.

*Fábio Wanderley Reis é cientista político, professor emérito da Universidade Federal de Minas Gerais e autor, entre outros, de Mercado e Utopia (Edusp)



Escrito por gilvan.cavalcantidemelo às 10h32
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DEU EM O ESTADO DE S. PAULO / ALIÁS

CISMA ENTRE O CATOLICISMO E A SANTERÍA

José de Souza Martins*  

A revolução pôs em carne viva a fratura entre a Igreja da elite espanhola e o candomblé da massa trabalhadora

O socialismo da Revolução Cubana foi o resultado inevitável do capitalismo impossível. Cuba não teve uma burguesia competente e patriótica que nela promovesse e liderasse uma verdadeira revolução burguesa e construísse uma nação próspera e democraticamente pluralista. Os escassos membros da elite politicamente lúcidos, os filhos das famílias ricas que discreparam da elite servil e desfrutadora, colônia de Miami, optaram por continuar a luta pela independência no cenário inevitável de polarizações da Guerra Fria. Os irmãos Castro - Fidel, Raúl e Ramón - são filhos de latifundiários. Foram os filhos radicais da elite que lideraram o que foi, na verdade, a consumação da independência. Não é casual que a revolução tenha tido como herói ideológico o poeta da independência, José Martí.

A Revolução Cubana, por isso, pôs em carne viva a fratura que ocultamente dividia o país ainda colonial, esquematicamente, a elite branca e espanhola, de um lado, e a massa trabalhadora, negra, mestiça e branca, de outro. Expôs, também, a fratura entre o catolicismo da elite e a santería do povo, o candomblé de lá. A fuga em massa foi, praticamente, fuga de uma classe social inteira e sua religião, a burguesia e a pequena-burguesia que não conseguiram criar na ilha um modelo de capitalismo includente e democrático. Hoje, apenas pouco mais de um terço dos cubanos é católico e menos de 5% são praticantes.

A elite cubana, quando muito, cooptara mestiços como Batista, deposto pela revolução, que era pai-de-santo. A questão da religião é, justamente, a chave para desvendar muitos dos dilemas e dificuldades políticas da Revolução Cubana. O grande drama de Cuba não foi apenas o decreto do bloqueio econômico por parte dos Estados Unidos. Foi, também, o bloqueio religioso decretado pela Igreja Católica. Cuba deixara de ser colônia política da Espanha, mas não deixara de ser colônia religiosa da Igreja Católica da Espanha. Num país de católicos nominais, sincretismo religioso e forte presença de cultos africanos, as vocações religiosas católicas eram recrutadas fora do país, especialmente na metrópole.

Quando, em 1980, o professor Florestan Fernandes voltou de Cuba, com materiais para o livro que escreveria sobre o socialismo, trouxe-me o convite do poeta Roberto Fernández Retamar para integrar o júri do Prêmio Casa de las Américas de 1981. Deu a entender que alguém em Cuba queria falar comigo sobre a Igreja. De fato, já em Havana, fui visitado no hotel por alguém que me convidava para um encontro com o homem que, no Partido Comunista Cubano, cuidava do assunto das religiões. Foi um encontro interessante. Ele era mulato, muito informado sobre religião, com o amplo escritório cheio de livros religiosos ou sobre religião. Explicou-me que o povo mesmo inserira Fidel no panteão da santería considerando-o filho de Xangô.

O que me levara até lá, fiquei então sabendo, eram as minhas ligações com vários bispos da Igreja Católica identificados com a Teologia da Libertação. O governo cubano queria um contato com os bispos brasileiros. Tinha esperança de que, por esse meio, o catolicismo em Cuba se tornasse mais ativo e socialmente participativo, disseminando comunidades eclesiais de base (CEBs). O governo queria vencer o bloqueio religioso da Igreja. Desde a morte do último cardeal, Cuba não tivera um substituto, sinal ostensivo do congelamento das relações do Vaticano com Havana. Com a revolução, muitos clérigos se foram, a Igreja cubana se fechou, limitando-se a celebrar missas. Até mesmo um grupo de sacerdotes espanhóis foi apanhado de armas nas mãos, na invasão da Baía dos Porcos, em 1961. Foram deportados para a Espanha. Para eles, a Guerra Civil espanhola contra a república e o comunismo não terminara, continuava em Cuba.

Alguns dias depois, fui novamente procurado no hotel por um senhor em mangas de camisa, pastinha embaixo do braço. Convidava-me para jantar no restaurante El Conejito. Queria conversar sobre o modo de fazer a ligação com a Igreja no Brasil, sobre quem poderia ser a correia de transmissão do pedido cubano de socorro religioso. Sugeri que o melhor caminho seria o de convidar algum religioso brasileiro, intelectual, para uma das atividades da Casa das Américas e pedir-lhe que organizasse o contato. Depois de examinar vários nomes, propus o de frei Betto. Betto tinha um papel importante nas CEBs e mantinha um relacionamento de confiança com um grande número de bispos. O interlocutor exclamou: “Frei Betto seria sopa no mel!”, pois já o conhecia de nome. E assim foi feito. Betto foi a Cuba, acabou entrevistando longamente Fidel Castro e publicou Fidel e a Religião. Esse livro seria lido pelo papa João Paulo II. O bispo dom Pedro Casaldáliga também foi a Cuba e conversou com Fidel. Além do enorme prestígio que tem no Brasil, é influente em setores do catolicismo espanhol e latino-americano. O papa acabou nomeando um bispo cubano como cardeal de Havana e fez a famosa visita a Cuba que descongelou o catolicismo naquele país.

Nessa viagem de 1981, conheci os três irmãos Castro e participei de dois encontros com Fidel. Num deles, na casa do ministro da Cultura, Armando Hart, ficamos sentados no pequeno jardim que dava para a rua. Ao chegar, sentara-se quase ao meu lado, a cerca de um metro de onde me encontrava. Confessou sua paixão pela literatura. Notívago, passava boa parte da noite lendo. Falou pouco e perguntou muito, nas três horas de conversa, rodeado pelos escritores latino-americanos que lá se encontravam e por vários sobreviventes da guerrilha de Sierra Maestra. Um guarda-costas fardado, em duas ocasiões, a um sinal dele, passou-lhe um charuto. Vi claramente quando jogou no chão o toco de um deles e pisou sobre ele com a bota. Mal levantou o pé, o peguei. Eu o tenho até hoje como uma espécie de relíquia e símbolo de uma era de sofrimentos e de esperança, o momento em que a revolução procurava se reconciliar com a Igreja e destravar politicamente o campo da fé.

*José de Souza Martins é professor titular de Sociologia da Faculdade de Filosofia da USP

 



Escrito por gilvan.cavalcantidemelo às 10h26
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DEU NA FOLHA DE S. PAULO

REPRESSÃO E PRECONCEITO

FERREIRA GULLAR



 VAMOS FALAR a verdade: a sociedade em que vivemos é pura repressão. Já foi pior, claro, muito pior. Houve tempo em que as mulheres não podiam mostrar nem o pé, quanto mais as coxas ou a barriguinha, como mostram hoje. Naquela época, os homens apenas imaginavam como seria o corpo da mulher com quem iam se casar. Hoje, podem vê-lo inteiro, da barriga às nádegas, com exceção talvez do púbis. Por que a repressão? Por mero preconceito, pelo propósito moralista que tomou conta da sociedade.

Não nascemos nus? Por que então temos de andar cobertos de roupas, que nos escondem o corpo? Disse que hoje as mulheres mostram quase tudo, mas isso na praia, porque, fora de lá, escondem quase tudo. Claro, não como antigamente, quando tinham que se cobrir de saias e mais saias, blusas e corpetes.

E os homens? Esses, coitados, tendo que imitar os hábitos europeus, sufocavam dentro de roupas pesadas, paletós e coletes. O calor insuportável terminou por obrigá-los a aliviar a vestimenta, mas, até hoje, homem que se respeita usa paletó e gravata.

Às vezes, alguns tiram a gravata, mas dificilmente tiram o paletó, a camisa, as calças; a cueca, então, nem pensar. Por que não podemos andar nus como os índios? Não nascemos nus? Nos países frios, no inverno, admito, não dá para abandonar as roupas, mas, nos trópicos, as roupas são a expressão dos preconceitos morais e da repressão religiosa. Os únicos que se aventuram a ficar nus em pêlo são os nudistas, mas apenas em certas praias, e não por culpa deles; por culpa, sim, da hipocrisia social que obrigaria a polícia a prendê-los. Por que não se pode entrar nu num banco, já que obscenidades maiores são lá praticadas com permissão da lei?A verdade é que a repressão está presente em todos os momentos de nossa vida. E de tal modo introjetou-se em nós que, quase automaticamente, vamos impondo-a sobre cada pessoa, mal começa a entender as coisas. Não pode pôr a mão na boca, o dedo no nariz, juntar a chupeta do chão e chupá-la, trepar na cadeira de balanço, aproximar-se do fogão, brincar com faca e tesoura, chupar bola de gude. Não pode nada, nada! Além disso, tem de obedecer aos mais velhos -mesmo os que tenham mais de 30 anos-, aturar as gaiatices dos irmãos, apanhar sem revidar etc. Em seguida, vem a fase escolar, que nos obriga a soletrar, decorar, aprender a ler, a escrever, a contar, a dividir, a multiplicar. Ou seja, o sujeitinho que nasce livre é transformado em outra pessoa, metido numa camisa-de-força, engessado, robotizado.

E se se rebela, paga caro; conforme seja, cortam-lhe a mesada; se insiste, termina internado ou preso, vira bandido. E depois reclamam que o cara virou bandido! Se ele gosta de birita, maconha, cocaína, crack ou ecstasy, é problema dele. Mas não, pai, mãe, polícia, a sociedade inteira se volta contra ele. E depois ainda se tem o desplante de afirmar que vivemos numa democracia. Como democracia, se o cara tem que se sujeitar às imposições sociais? Por quê? Se o cara cheira, fica doidão e sai assaltando os caretas, é problema dele. O assaltado que se vire. Eu gostaria de saber por que esse preconceito contra quem gosta de drogas. Não tem gente que gosta de alpinismo, de asa-delta, de mascar chiclete, comer chocolate, malhar na academia? E então?

Cada um nasce com suas manias e preferências, que devem ser respeitadas pelos demais, do contrário não se pode falar que vivemos numa sociedade que respeita os direitos dos cidadãos.

A verdade é que não respeita. Nem o poderia, uma vez que quase nunca as normas sociais coincidem com as necessidades e desejos das pessoas. Por exemplo, se o cara tem preferências sexuais, que escapam ao que se chama de normalidade, está sujeito, conforme o caso, a condenações judiciais ou até linchamento por parte dos fanáticos defensores daquelas normas. Se o sujeito nasceu pedófilo, por que sua preferência sexual é considerada crime? Por que punir alguém que apenas obedece a impulsos inatos que lhe são impostos pela natureza?

Está tudo muito errado. Por razões que ignoro -mas que refuto liminarmente-, os homens escolheram reprimir seus desejos mais genuínos e seu modo espontâneo de vida em função de normas, disciplina, valores que, como observou Nietzsche, só favorecem os fracos e covardes. Só esses necessitam de leis repressoras para compensar a natural superioridade dos fortes.

Agora, se alguém me pergunta se permito que defequem em minha sala e não no vaso do banheiro, respondo que devem fazê-lo no vaso. E que dêem a descarga, certo?

 



Escrito por gilvan.cavalcantidemelo às 10h11
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DEU EM O GLOBO

 

A IMPRENSA E A SOCIEDADE

Merval Pereira


Na esteira da decisão histórica do ministro do Supremo Tribunal Federal Carlos Ayres Britto, a partir de uma ação do deputado federal Miro Teixeira, de conceder uma liminar suspendendo os efeitos de alguns dispositivos da Lei de Imprensa, surge uma discussão sobre a necessidade de revisão completa da legislação, pois a que estava em vigor data da ditadura militar e não corresponde ao momento democrático que vivemos. O próprio ministro Ayres Britto sugeriu que uma nova lei, dentro dos parâmetros democráticos, deve ser aprovada pelo Congresso. Discordo da necessidade de haver uma lei específica para a imprensa, posição defendida pela Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), que não considera correto que os jornalistas sejam regidos pela legislação comum. Não entendo por quê.

Há muito tempo defendo em seminários e entrevistas que não há necessidade de uma legislação específica para eventuais crimes cometidos pela imprensa. Repito o que defendi em uma dessas ocasiões.

"Dependendo de como resolvem seus dilemas éticos, jornal e jornalista perdem ou ganham prestígio e credibilidade. Os consumidores brasileiros a cada dia sabem melhor como defender seus interesses. E, assim como rejeitam a geladeira com defeito, acabam abandonando o veículo de comunicação que não lhes prestar os serviços que esperam dele".

"Essa atitude do leitor, melhor do que qualquer instrumento legal, faz com que no jornalismo moderno os abusos contra a reputação de pessoas - independentemente de serem as mais altas autoridades ou os mais humildes cidadãos- sejam, crescentemente, a exceção e não a norma."

"É assim em países como os Estados Unidos e a França, e está começando a ser na Inglaterra dos tablóides espetaculosos. Nenhum desses países, a propósito, tem Lei de Imprensa."

"E será assim no Brasil sem necessidade de legislação especial. O Código Penal e o Código Civil têm espaço e escopo para punir todas as formas de calúnia, difamação e injúria, assim como para garantir a indenização dos danos morais causados por leviandade ou dolo."

Hoje em dia, na era da informação on line e do noticiário 24 horas de televisão e rádio, há ainda mais razão para se ter certeza de que o consumidor de notícias tem a seu dispor não apenas uma gama infindável de transmissores de informação, como a capacidade de influenciar, através de uma rede de contatos, a opinião de seu grupo. Os meios de comunicação estão, assim, sob o escrutínio permanente de seus consumidores.

Um dos grandes jornalistas americanos, Jack Anderson, considerado o pai do jornalismo investigativo, lembra em um de seus textos que a necessidade de a imprensa ocupar um lugar antagônico ao poder foi percebida com clareza pelos fundadores da América. "Por isso, tornaram a liberdade de imprensa a primeira garantia da Carta de Direitos. Sem liberdade de imprensa, sabiam, as outras liberdades desmoronariam. Porque o governo, devido à sua própria natureza, tende à opressão. E o governo, sem um cão de guarda, logo passa a oprimir o povo a que deve servir. (...)"

Foi Thomas Jefferson quem disse: "Se me coubesse decidir se deveríamos ter um governo sem jornais, ou jornais sem um governo, não hesitaria um momento em preferir a última solução". Mesmo diante da experiência de exercer o governo recebendo muitas críticas, até mesmo a de jornais irresponsáveis, Jefferson não mudou de opinião. Em uma carta, escreveu:

"Nenhuma experiência pode ser mais interessante do que esta que estamos agora tentando, e que confiamos acabará por comprovar que os homens podem ser governados pela razão e pela verdade. Nosso objetivo primordial deve ser, por conseguinte, manter-lhes abertos todos os caminhos da verdade. O caminho mais eficiente até hoje encontrado é a liberdade da imprensa. Por isso, é o primeiro a ser fechado por aqueles que receiam a investigação de suas ações".

A imprensa americana é o modelo da brasileira há pelo menos meio século, e veio dela também uma das bases para a argumentação do deputado federal Miro Teixeira, o autor da ação no Supremo em nome do PDT. Por se tratar de uma Argüição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF), não pode ser apresentada individualmente, mas foi o deputado carioca, jornalista, quem tomou a iniciativa da ação.

Nas suas pesquisas, Miro encontrou o caso do jornal americano "The New York Times" contra Sullivan, que foi decidido pelo Supremo. Sullivan era um comissário de polícia de Montgomery, no estado do Alabama, que entrou com uma ação contra o "Times" por este ter publicado um anúncio de líderes de entidades de direitos civis, entre eles o jovem Martin Luther King, com denúncias contra abusos da repressão policial.

Como nos processos de adeptos da Igreja Universal hoje em dia contra os jornais "Folha de S. Paulo" e "Extra", o comissário Sullivan pediu indenização. Ganhou naquela época U$500 mil, e junto com ele vários outros comissários entraram com o mesmo processo de indenização.

O "Times" recorreu em várias instâncias, até chegar ao Supremo, onde o juiz Brennan considerou que as indenizações "eram prova dramática" de como se tentava violar o direito da Nação americana de ser informada. E perguntava o juiz Brennan: "Hoje são esses comissários, amanhã quem serão?".

A decisão da Suprema Corte dos Estados Unidos, baseada no relatório de Brennan, é um dos marcos da liberdade de expressão. Por ela, ficou decidido o princípio da intenção de ofender como necessário para que um jornal fosse processado.



Escrito por gilvan.cavalcantidemelo às 10h02
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CONGRESSO INTERDITADO

Dora Kramer

 

A reclamação do Congresso sobre os abusos do Executivo na edição de medidas provisórias é assunto recorrente e algo inútil, porque nunca se chega a lugar algum.

O Planalto não quer a abrir mão do poder de governar depressa, controla a maioria parlamentar que também não se dispõe a desagradar à chefia, e a discussão empaca mais ou menos nos termos da reforma política: todo mundo aponta os defeitos, defende as mudanças, mas ninguém toma uma providência para valer.

Uma luz no fim desse longo túnel que começou a ser construído quando a Constituição de 1988 acabou com o decreto-lei e deu ao presidente da República o instrumento da MP para ser usado em caso de urgência e relevância, surge agora na junção de esforços dos presidentes da Câmara, Arlindo Chinaglia, e do Senado, Garibaldi Alves.

Na abertura dos trabalhos legislativos deste ano, o foco dos discursos de ambos foi o efeito do uso abusivo das medidas provisórias sobre o equilíbrio dos Poderes. Garibaldi definiu o Congresso como “quarto de despejo de um presidencialismo de matiz absolutista”.

Chinaglia não radicaliza tanto na forma, tampouco entra em conflito com Garibaldi, mas no conteúdo diz o mesmo: “A agilidade do presidencialismo não pode se dar ao custo de a Câmara e o Senado simplesmente perderem a prerrogativa de definir a própria pauta de trabalho.”

Mostra a distorção em números: há 7 medidas provisórias trancando a pauta da Câmara. Daqui até 22 de março, outras 22 chegarão uma após a outra na data limite. Feitas as contas, dá uma medida provisória por dia trancando a pauta. Mais de uma, considerados só os dias úteis.

E de quem é o defeito maior, do Executivo que abusa ou do Legislativo que não se dá ao respeito e impõe a limitação, devolvendo as medidas que não forem urgentes nem relevantes?

Chinaglia, em princípio, divide as responsabilidades. “Governo nenhum toma a iniciativa de ceder poder e na prática cotidiana da política também é irreal achar que seja possível a devolução sistemática das medidas que não se enquadram nos critérios de relevância e urgência.”

Como, na opinião dele, o Legislativo também não pode só reclamar e precisa tomar uma atitude, a solução é buscar uma acomodação que atenda ao princípio do equilíbrio. Em 2001, quando se fez a primeira mexida na sistemática das MPs, ele acha que houve um avanço.

Antes disso, o Executivo podia reeditar medidas provisórias de forma ilimitada. Resultado: o Congresso ficava simplesmente excluído do processo. A idéia de fazer com que a pauta fosse paralisada depois de 120 dias de tramitação da MP tinha o objetivo de fazer o Congresso votar as medidas antes da data limite.

Quando assumiu a presidência da Câmara, Arlindo Chinaglia diz que tentou instituir essa sistemática. Mas a oposição foi contra e recorreu à Comissão de Constituição e Justiça, que tomou a seguinte decisão: medidas provisórias só podem entrar na pauta de votação mediante o vencimento de seu prazo de validade.

O que fazer, então, para resolver o problema sem entrar em choque com o Executivo que, em princípio, não quer mudar nada?

“O principal é desatar o nó do trancamento da pauta.” Como? A idéia do presidente da Câmara é aproveitar uma proposta de autoria do falecido senador Antonio Carlos Magalhães, já aprovada pelo Senado e em tramitação em comissão especial da Câmara, introduzindo a seguinte exigência: medida provisória que não for votada em 120 dias perde a validade.

Desse modo, o Executivo seria o principal interessado em mobilizar sua maioria para aprovar o quanto antes as MPs.

Para que elas realmente não atrapalhassem os trabalhos normais do Congresso, o exame das medidas provisórias seria feito em sessões extraordinárias, deixando as ordinárias liberadas para tocar a agenda do Parlamento.

Muito bem, mas uma coisa é falar, combinar, outra coisa é aprovar, quebrando as resistências do Executivo. Sobre essa parte, Arlindo Chinaglia não gosta de discorrer, pois evidentemente enfrentará mais dificuldades na bancada governista, notadamente no PT, do que na oposição.

Foi assim quando, em 2001, Aécio Neves era presidente da Câmara e teve um trabalho enorme para convencer o então governo tucano a alterar a regra das medidas provisórias. É de se imaginar que seja igualmente difícil mexer no assunto agora.

“Por isso mesmo é ótimo a pressão de fora para dentro. É indispensável para que a sociedade entenda que o que está em jogo são as prerrogativas da Casa de representação popular, para cobrar e levar o Parlamento a buscar a sua independência.”

E há um horizonte para a solução?

Arlindo Chinaglia acha que o assunto chega em abril ao plenário da Câmara e, antes do recesso eleitoral de julho em diante, pode estar resolvido.

“O governo não poderá dizer que está sendo limitado indevidamente, mas também não terá como continuar a ocupar todos os espaços sem conviver com o contraditório de um Parlamento que não abre mão de cumprir seu papel.”

 



Escrito por gilvan.cavalcantidemelo às 09h54
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DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

 

PT VERSUS PT

Suely Caldas

Encerrado em 31 de outubro de 2007 sem produzir nenhuma proposta de reforma, o Fórum da Previdência fracassou, projetando um cenário sombrio e incerto para os jovens de hoje que se aposentarão no futuro. Mas o debate sobre o tema ultrapassou os limites do Fórum e acaba de ganhar combustível com um trabalho escrito a seis mãos pelo atual secretário de Previdência, Helmut Schwarzer, e dois outros funcionários do Ministério, Eduardo da Silva Pereira e Luis Henrique Paiva. Intitulado Projeções de Longo Prazo para o Regime Geral de Previdência Social, o trabalho é uma resposta a críticas feitas pelo economista do PT, Amir Khair, ao modelo usado pela equipe do governo petista para a crônica situação deficitária da Previdência até 2050. É PT versus PT.

E o curioso dessa história é que os dois lados escolheram um tucano para intermediar e divulgar suas idéias: o economista José Roberto Afonso, ex-assessor de José Serra e de Tasso Jereissati, que publicou os dois textos em seu mailing via internet, enviado para uma vasta lista de formadores de opinião e pessoas de prestígio do meio acadêmico. Quem dera esse convívio harmônico e de entendimento fosse reprisado entre os políticos dos dois partidos.

Hoje adversários, os dois lados foram influentes protagonistas nas discussões do Fórum. Helmut Schwarzer, como representante do Ministério da Previdência, e Amir Khair, como consultor do Dieese, e dos sindicatos de trabalhadores. Coube a Khair a iniciativa de tornar pública a discórdia, em novembro de 2007, com o texto Projeções de Longo Prazo para o Regime Geral de Previdência Social, onde faz duras críticas ao cenário de longo prazo construído pela equipe do Ministério, classificando-o de marcadamente pessimista e conservador, e chega a suspeitar da credibilidade dos números de Schwarzer, sugerindo submetê-los a uma auditoria.

Ao concluir que a Previdência marcha para o equilíbrio financeiro e até um confortável superávit em 2050, Khair considera dispensável uma reforma e rejeita qualquer mudança nas regras em vigor de acesso à aposentadoria. Mesmo com a certeza de que o aumento da longevidade do brasileiro e o crescimento da população idosa pressionam a expansão dos gastos com benefícios, ele defende manter a idade mínima para aposentadoria em 65 anos para o homem e 60 para a mulher e o tempo de contribuição ao Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) em 35 e 30 anos, respectivamente. Exatamente a linha de resistência de nada mudar, defendida pelos sindicatos de trabalhadores para os quais prestou consultoria.

Schwarzer considera irreal, inconsistente e exageradamente otimista o cenário descrito por Khair para as próximas quatro décadas. E manifesta indignação com o pedido de auditoria. “É descabido pedir auditoria para os números do Ministério. Fizemos seis reuniões com Khair e o Dieese, abrimos nossos números, que não foram inventados, fazem parte da história da Previdência, provamos que não há mágica e que nosso modelo de projeção é bem fundamentado”, argumenta Helmut Schwarzer.

Foi com base nessa projeção que, no Fórum, a equipe do Ministério insistiu na necessidade de uma reforma constitucional e mudança nas regras de acesso à aposentadoria, mantendo a idade mínima em 65 anos para o homem e 60 para a mulher, mas ampliando o tempo de contribuição ao INSS de 35 para 40 anos o homem e de 30 para 35 anos a mulher. Isto, contudo, não alcançaria quem já contribui hoje para o INSS, valeria apenas para os que ingressassem no mercado de trabalho após a aprovação da lei.

As duas propostas divergentes têm por base modelos de projeção discordantes. Os números diferem quando fazem projeções futuras para o PIB, expansão do mercado de trabalho, aumento do salário mínimo, melhoria de eficiência na gestão e crescimento da população idosa. Khair considerou as projeções de Schwarzer excessivamente pessimistas, e este viu nos números do adversário fantasioso otimismo. Resultado: Khair projeta uma trajetória em que o déficit da Previdência perde força com o tempo até chegar a superávit em 2050. Enquanto Schwarzer vê o contrário: o déficit até pode cair levemente com o aumento do emprego formal, mas passa a crescer perigosamente a partir do 20º ano.

A polêmica é bem-vinda e melhor ainda ela se passar dentro do PT, que sempre considerou o tema bandeira da oposição. Mas, infelizmente, ela não terá força para convencer o presidente Lula a abandonar o oportunismo eleitoral, assumir a responsabilidade de estadista e decidir tocar a reforma.

*Suely Caldas é jornalista e professora de Comunicação da PUC-RJ.

 



Escrito por gilvan.cavalcantidemelo às 09h47
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DEU NA FOLHA DE S. PAULO

 

QUEM DÁ MAIS?

Eliane Cantanhêde

Ao anunciar a intenção de comprar submarinos e caças e de fazer complexas parcerias com a França, o Brasil aguçou o apetite dos maiores fornecedores de armamento no mundo, a começar dos Estados Unidos e da Alemanha.

Por enquanto, os americanos reagem com diplomacia, convidando o ministro da Defesa para fazer um giro parecido com o que fez pela França e pela Rússia e conhecer o que eles estão desenvolvendo por lá. Mas os alemães estão irritados e, nos bastidores, há até a ameaça de ir às vias de direito.

Em carta a Lula, à qual a Folha teve acesso, o grupo alemão ThyssenKrupp cobrou um compromisso brasileiro: o de que fecharia um pacote de submarinos com ele em troca da construção de uma siderúrgica no Rio. Grosso modo, 1,018 bilhão dos submarinos contra 3,5 bilhões da siderúrgica.

Os alemães fizeram a parte deles e reclamam que o Brasil roeu a corda. Pior: que souberam por jornais que Nelson Jobim dá preferência para os submarinos franceses. Sentiram-se apunhalados pelas costas, até porque o programa nuclear Brasil-Alemanha tem décadas.
O que está jogado ao mar, ao ar e à cobiça dos mercados internacionais é um pacote de submarinos convencionais, tecnologia de submarinos de propulsão nuclear e a renovação da frota de caças da FAB, além de helicópteros, blindados e satélites. Jobim não diz quanto, nem quando, nem com quem, mas passa a sensação de ter aberto uma espécie de leilão. Quem dá mais?

A disputa está na fase de saber quem transfere mais e menos tecnologia. O Brasil diz que os franceses são mais compreensivos; os americanos e os alemães gritam que não. Na verdade, ninguém transfere nada nesse leilão.

Enquanto a gente discute a tapioca e os cartões corporativos, o mundo quer saber de armamento, comércio, dólares. Aliás, a coisa caminha mesmo é para euros.

 



Escrito por gilvan.cavalcantidemelo às 09h40
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DEU EM O GLOBO

LIÇÕES DO ACERTO

Miriam Leitão


Tancredo Neves disse emocionado: "Não pagaremos a dívida com o sangue do povo." Negociadores brasileiros foram humilhados, como se fossem de um país caloteiro. Pedro Malan, antes de ser ministro, passou anos com paciência chinesa oferecendo aos credores um "menu de opções". O ex-ministro Bresser Pereira foi enxotado de Washington quando fez uma proposta sensata.

Pensei na minha geração de jornalistas de assuntos econômicos quando vi a notícia de que a dívida, afinal, era menor que os nossos ativos. Nos momentos de aflição e em todos os assuntos que acompanhamos em anos dos nossos "constrangimentos externos". Quando o Brasil quebrou em 82, quando quebrou de novo em 87, as maxidesvalorizações, os acordos seguidos com o Fundo Monetário Internacional, os jornalistas esperando no frio de Washington o que diriam as autoridades do Tesouro e do Fundo a mais um pedido de waiver: licença para não cumprir o acordo. Foi por isso que escrevi no blog: a minha geração viu quando a dívida engoliu o Brasil. Nada aconteceu de repente, há anos a dívida externa tinha deixado de ser o problema, mas o marco desta última semana não foi menos emocionante.

Foi longo o tempo desta história que nos levou da bola-de-neve da dívida no começo dos anos 80 à última quinta-feira, quando a dívida externa, pública e privada, representava um montante menor que os nossos ativos.

Isso não é tudo. A dívida interna cresceu muito, há outros passivos. Mas olhemos para trás para ver o que acertamos. As lições dos acertos são mais difíceis de tirar que as dos erros. Os acertos têm proprietários e eles preferem as explicações que privatizam o que é coletivo.

A dívida externa feita pelos militares era inevitável. Dinheiro barato, necessidade de investimento no país, Brasil em crescimento. Importamos poupança em forma de dívida. Ela estourou ainda no governo Figueiredo pelo peso dos juros americanos, que chegaram, no final dos anos 70, a níveis nunca vistos antes. Em setembro de 1982, o México declarou moratória; depois, nós. A quebradeira dos países latinos fez da região uma área de estagnação econômica. Começou assim a era de cartas com o FMI, nunca cumpridas, desvalorizações cambiais, políticas recessivas para que, com os saldos, fosse possível pagar os juros da dívida. Só os juros, porque a bola-de-neve da dívida parecia cada vez mais impagável. Em 1987, fevereiro, o então ministro Dilson Funaro decretou nova moratória, que o governo José Sarney apresentou como ato de soberania. Era nada. Não pagávamos porque não tínhamos dinheiro.

O ministro Bresser Pereira assumiu o ministério três meses depois num país quebrado. Desenhou uma engenharia de pagamento que embutia uma idéia nova: os credores aceitariam receber menos pela dívida e retomaríamos o pagamento. Bresser ouviu do secretário do Tesouro James Baker que sua proposta era non starter, ou seja, não dava nem para o começo de conversa. Falso. Logo depois a mesma idéia foi apresentada pelo secretário que lhe sucedeu, Nicholas Brady. Virou a proposta Brady.

Foi isto que Pedro Malan foi negociar: a transformação dos papéis da dívida, tantas vezes caloteados, nos novos papéis, os Brady Bonds. Foi oferecido aos credores o tal "menu de opções": papéis diversos pelos quais se podia trocar a dívida velha caloteada.

Antes disso, negociadores brasileiros amargavam um tratamento de quinta quando iam a Washington negociar a dívida. Funcionários do Banco Central administravam reservas, sempre insuficientes.

A luta contra a inflação teve que lançar mão do dólar como ponto fixo a partir do qual se construía uma nova mentalidade e se apagava a memória inflacionária. Dólar barato levou a uma segunda onda de endividamento. Essa nova dívida e os déficits em transações correntes levaram às crises cambiais do final dos anos 90. O Brasil teve que ir de novo a Washington, pedindo para ser "resgatado", em 1998. Os novos empréstimos não evitaram a flutuação do câmbio em 1999. A velha dívida continuava no mercado e os C.Bonds eram fantasmas, lembrança dos velhos calotes; enquanto a nova dívida virava uma enorme onda sobre o Brasil.

A normalização da economia brasileira após o choque cambial, a flutuação do câmbio, o choque de produtividade que a economia nacional tinha passado nos anos 90 levaram aos saldos comerciais crescentes. O Brasil, no final do governo Fernando Henrique, começou a recomprar sorrateiramente a dívida velha. Sendo assim, discretamente, o país se aproveitava do deságio: comprava ainda barato o que estava começando a se valorizar.

O governo Lula persistiu neste caminho: recompra de dívida, acumulação de reservas, aproveitando bem a nova onda de liquidez do mundo. Fez mais: pagou antecipadamente as dívidas com FMI, Banco Mundial, Clube de Paris. O PT, que durante toda a sua travessia pregara versões diferentes, algumas incendiárias, de não pagamento da dívida, acabou sendo o governo que pagou várias parcelas da dívida externa antes do vencimento.

Foi uma longa caminhada, com tropeços, humilhações, paciência, persistência, esta que nos leva de um devedor alquebrado no começo da década de 1980 a um país com dívida externa praticamente nula neste 2008. A grande lição que fica é que os acertos são como uma corrida de revezamento na qual cada governo, cada grupo no poder, faz uma parte do trajeto. Há outras missões, aparentemente impossíveis no Brasil, esperando que o país dê os primeiros passos da nova corrida.




Escrito por gilvan.cavalcantidemelo às 09h32
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DEU NO PORTAL DO PPS

NA GLOBO NEWS, FREIRE DEBATE COM BORIS FAUSTO E LAMOUNIER O FUTURO DE CUBA

 

Uma micro-China, com o regime político fechado e uma economia de mercado ou uma transição para a democracia? Para onde vai Cuba após a decisão do líder Fidel Castro de deixar o poder nas mãos do irmão, Raúl Castro? Foi esse o tema do debate do programa Globo News Painel levado ao ar neste sábado à noite, com a participação do presidente nacional do PPS, Roberto Freire, do historiador Boris Fausto e do cientista político Bolívar Lamonier.

“Sou um torcedor. Torço para que Cuba não jogue fora essa oportunidade de mudanças e não jogue fora tudo o que significou um sonho”, disse Freire. Boris Fausto se disse mais cético: “não tenho mais sonhos; desapareceram, se apagaram”. Lamounier confia no exemplo chinês. “A China mudou; não dá mais para (Cuba) segurar um grau de atraso que impõe um sacrifício desmesurado à população”, disse.

Resistência


Boris Fausto lembrou que durante o regime de Fidel não se organizou uma resistência democrática em Cuba, como ocorreu nos diversos países socialistas de linha dura. Freire,no entanto, observou que essas manifestações vêm surgindo,e que mesmo o cantor e compositor Pablo Milanés, muito vinculado do socialismo cubano, apresenta letras que contestam a falta de liberdade na ilha.

Cuba continua socialista, afirmou Freire, quando questionado pelo mediador do programa, o jornalista William Waac. “É um pouco bizantino, mas, como a China, mantém o regime de partido único que define a economia; não quis fazer a Perestroika (abertura econômica) de Gorbathev e preferiu a ortodoxia e, quando quis abrir, enfrentou ainda as conseqüências do embargo econômico imposto pelos americanos”. Na avaliação de Freire, a ilha consegue,sim, fazer a transição para a abertura e continuar com as conquistas do socialismo. Ele acha que o país conta com a simpatia, por exemplo, da União Européia, que já retomou com ela o diálogo.

Socialismo


Já Boris Fausto acha que Cuba nunca foi socialista. “Expropriou meios de produção, mas do ponto de vista da liberdade, da opinião, do debate, nunca foi socialista”. Após observação de Freire de que nenhum dos países do socialismo real exercitou essas liberdades, citou a Suécia como um exemplo a ser seguido. Ao que Freire respondeu, parafraseando Gorbachev: “A social-democracia fez mais pela classe trabalhadora do que nós, comunistas”.

Boris acha que após as eleições americanas, com as mudanças daquele país em relação à ilha, Cuba vai seguir o modelo Chinês. “Será uma micro-China, que vai manter o modelo político e mudar a economia”.

Bolívar Lamounier discorda. “Cuba é um mercado insignificante; se tentarem prosseguir com um sistema fechado, com uma imitação de socialismo, haverá mais sofrimento para o povo”. Na avaliação do cientista político, Raúl Castro optará por uma transição para a abertura tanto econômica quanto política.

 



Escrito por gilvan.cavalcantidemelo às 09h24
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