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ARTIGOS
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO
PROPOSTAS DE MUDANÇAS IGNORAM QUE EUA MUDARAM
Alvin e Heidi Toffler*
Em todo o globo, milhões de pessoas ficam com os olhos vermelhos, por ficar horas diante da TV acompanhando uma das mais incríveis batalhas políticas da história americana - um confronto cujo resultado poderá transformar radicalmente as relações dos Estados Unidos com o restante do mundo.
Com o presidente George W. Bush deixando o cargo em janeiro, grande parte do mundo mal pode esperar. O mesmo vale para muitos, se não a maioria, dos americanos. No próximo outono (no Hemisfério Norte), os dois principais partidos políticos devem escolher seu candidato à presidência: Barack Obama ou Hillary Clinton pelo Partido Democrata e, possivelmente, John McCain pelo Partido Republicano.
Todos eles são pessoas inteligentes. E todos dispararam promessas como balas de metralhadoras: promessas de solucionar o deteriorado sistema de saúde, promessas de salvar o sistema de previdência social, promessas de criação de empregos, promessas de melhorar a educação, promessas de mudar o sistema fiscal, promessas de salvar o país de ataques terroristas e promessas de reverter a situação da economia.
Naturalmente, é bem provável que nenhum dos aspirantes à presidência, se eleito, consiga cumprir nem mesmo algumas dessas promessas.
Em primeiro lugar, para realizar mudanças, num dado momento até o mais forte presidente precisará do apoio do Congresso, das burocracias governamentais pertinentes, da mídia, dos sindicatos, dos incontáveis lobistas e de outros centros de poder, desde organizações profissionais até grupos religiosos.
O processo de tomada de decisão raramente consegue acompanhar o ritmo das mudanças na sociedade. Freqüentemente, quando as forças necessárias estão alinhadas contra a inevitável oposição, as razões da mudança já mudaram. No final, o resultado obtido, se houver, quase nada tem a ver com o que foi prometido.
Literalmente, nas recentes eleições intrapartidárias, todos os candidatos, de uma maneira ou de outra, falam dramaticamente da necessidade de “mudança”. Contudo, muitas das mudanças que eles pregam, remontam a presidentes anteriores. Assim, McCain, como tantos outros republicanos, afirma que deseja menos impostos e um governo mais enxuto - políticas análogas ao “Economic Recovery Tax Act” (lei fiscal para recuperação econômica) de 1981, promovido por Ronald Reagan no início da sua presidência.
Sucessivamente, a mudança defendida por Reagan correspondia à chamada “mellon tax cuts” (cortes de impostos propostos pelo secretário do Tesouro da década de 20, Andrew William Mellon). São essas as novas idéias.
Da mesma forma, as propostas feitas pelos candidatos democratas para acabar com a crise do sistema de saúde remontam ao mandato de Lyndon Johnson, nos anos 60, com raízes ainda mais antigas na presidência de Franklin Roosevelt, na década de 30.
Os americanos ouvem dos candidatos que o sistema energético está em crise, o sistema de saúde está em crise, o sistema educacional está em crise e, de acordo com muitos, o próprio sistema político está “arruinado”.
Mas até agora nenhum dos principais candidatos sugeriu que todas essas crises, na verdade, são partes de uma crise sistêmica única, muito maior e mais importante - partes, explicando de um modo diferente, de uma única “supercrise” transformadora, que penetra em todos os aspectos da vida americana.
Os Estados Unidos estão vivendo a agonia do industrialismo e a sua substituição por uma ordem social e uma economia com base no conhecimento, radicalmente diferentes, com novos conceitos de sexo, raça e idade, novas estruturas familiares e novas formas organizacionais e culturais.
As novas instituições e ordenações sociais, contudo, não se encaixam todas. Muitas são ainda experimentais. Mas a evidência mais gritante do declínio industrial não é encontrada só nas siderúrgicas vazias e no declínio do trabalho operário, no chão das fábricas.
A burocracia é a forma clássica de organização da era industrial e funcionou bem numa economia baseada em chaminés e linhas de montagem tradicionais. Mas as burocracias clássicas, em larga escala, não conseguem acompanhar a velocidade e complexidade cada vez mais aceleradas dos EUA na era pós-industrial.
Assim, presenciamos a falência devastadora, uma após outra, das gigantescas burocracias públicas e privadas dos Estados Unidos. Símbolos do que está ocorrendo - e do que está à frente - são os sucessivos fiascos associados ao Departamento de Segurança Nacional. Uma “megaburocracia” improvisada depois dos atentados de 11 de Setembro contra o World Trade Center, em Nova York, reuniu, no processo, 22 pequenas agências (cada uma com sua própria burocracia), absorvendo a Fema ( Agência Federal de Gerenciamento de Emergências).
Durante os furacões e inundações que destruíram grande parte de New Orleans, em 2005, deixando mais de 250 mil pessoas desabrigadas, o governo federal em Washington não conseguiu uma coordenação com a burocracia estatal de Louisiana, que também não conseguiu se coordenar com a burocracia do governo municipal da cidade assolada.
Pior ainda, dois anos e meio depois que os refugiados se instalaram em trailers, muitas dessas moradias temporárias podem estar envenenando quimicamente as pessoas que vivem nelas, anunciou o Centro de Controle e Prevenção de Doenças.
Esse é apenas um exemplo dramático dos fracassos burocráticos cada vez piores, em todos os níveis do governo americano, e também no setor privado.
Os candidatos discutem sobre vários assuntos, contudo nenhum deles os colocou num quadro mais amplo, necessário para compreender o que está ocorrendo nos EUA.
Em vez de deixar claro para os eleitores que os Estados Unidos não são mais uma sociedade industrial, muitos candidatos defendem o retorno dos empregos na manufatura de pouca tecnologia, que foram deslocados para a China, Índia e outros países com mão-de-obra barata. Eles tratam do declínio dos empregos no setor de manufatura como se fosse um fato recente.
Nenhum deles parece saber que os Estados Unidos iniciaram seu salto para além da industrialização em 1956, quando, pela primeira vez, os postos de trabalho no setor de manufatura foram superados em número pelos empregos na incipiente economia baseada nos serviços e no conhecimento.
Nenhum dos candidatos associou as mudanças radicais observadas hoje, no campo dos valores, da estrutura familiar e da cultura, à ascensão de uma nova forma revolucionária de criação de riqueza que, tendo começado nos Estados Unidos, rapidamente se difundiu pelo globo.
A seleção dos candidatos para disputar a presidência dos Estados Unidos, em novembro, os incontáveis discursos pronunciados por McCain, Obama e Hillary Clinton, a atenção interminável dispensada às suas campanhas pela mídia mais poderosa, tudo isso constitui uma oportunidade histórica para se oferecer aos eleitores um mapa coerente das mudanças inter-relacionadas necessárias para completar a transição de uma sociedade e uma economia industriais para uma fase pós-industrial.
Infelizmente, com exceção de alguns que têm expressado preocupação com as questões ambientais, o mantra da mudança cantado em toda temporada política vigente, oferece, no geral, aos americanos, propostas familiares fragmentadas - mudanças com base na era industrial para uma sociedade que já não é mais industrializada.
Está na hora de os políticos americanos enfrentarem a inquietante realidade de uma sociedade e economia revolucionárias que está despontando. Essa seria uma verdadeira mudança política.
*Alvin e Heidi Toffler, autores de ‘Revolutionary Health’ (Riqueza Revolucionária), ‘O Choque do Futuro’ e ‘A Terceira Onda’, escreveram este artigo para Tribune Media Services.
Escrito por gilvan.cavalcantidemelo às 12h56
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DEU NA FOLHA DE S. PAULO (ONTEM)
NADA É DEFINITIVO
Rubens Ricupero
A ESPANHA do último quarto de século tem sido a grande esperança dos latino-americanos desanimados com seu persistente fracasso institucional desde a independência. Durante muito tempo, atribuía-se ao fatalismo do modelo herdado de espanhóis (e lusos) a incapacidade de construir instituições capazes de garantir estabilidade política com progresso econômico e igualitarismo social nos países ibéricos.
Muitos dos pensadores e políticos latino-americanos iam buscar no patrimonialismo, na falta de liberdades locais e tradição democrática da península a raiz dos nossos próprios vícios. Esses adquiriam, assim, o caráter de doença hereditária e incurável, como quase todas as deformações carregadas pelo DNA.
A prolongada decadência em que mergulharam as ex-metrópoles era a confirmação viva de que uma espécie de enfermidade degenerativa acometia os dois únicos países da Europa ocidental que haviam "derrotado" a Reforma religiosa e a Revolução Francesa, aferrando-se à Inquisição até bem entrado o século 19. As ditaduras de Salazar e Franco, a sanguinária Guerra Civil Espanhola, o espírito retrógrado perceptível na atmosfera de Lisboa e Madri até o início dos anos 1960 só reforçavam a impressão de irremediável declínio.
O êxito da transição democrática e européia de Portugal e Espanha, sobretudo dessa última, e a sabedoria do compromisso histórico que permitiu o Pacto de Moncloa no plano político e o milagre econômico espanhol vieram demonstrar que, até no berço da hispanidade, era possível romper a seqüência de catástrofes institucionais e edificar democracia moderna e dinâmica.
O progresso foi realmente tão rápido que, após dez anos de crescimento a 3,7% anuais, a Espanha ultrapassou a Itália em riqueza per capita, ocupando o sexto lugar da União Européia. Um dos "slogans" eleitorais do primeiro-ministro Zapatero era a promessa de arrebatar da França a quinta posição. De repente, contudo, a situação começa a dar sinais de esgotamento. Como nos Estados Unidos, confiou-se demais na bolha imobiliária, que vinha sustentando a expansão, graças à melhoria do nível de vida e aos imigrantes (700 mil por ano, desde 2000). O estouro da bolha passou a frear o crescimento e o consumo, apesar de inflação que se mantém em nível superior ao do resto da Europa.
O velho fantasma do confronto entre direita e esquerda volta a reaparecer, do mesmo modo que as divisões com a Igreja em matéria de moral e família. O país tem dificuldade em lidar com o passado e a Guerra Civil, com a anistia e as vítimas. Não conseguiu aprovar nem uma letra inócua para o Hino Nacional, que continua mudo. O fiasco das negociações com o terrorismo basco deixou o governo em posição de fraqueza diante de uma direita truculenta.
Na hora do triunfalismo, esquecia-se que, nos anos 1990, a ajuda européia chegou a representar 1,7% do PIB (Produto Interno Bruto) da Espanha, o que, além das instituições, ajuda a explicar o milagre. Até 2013, ela terá ainda a receber 31 bilhões, mas isso agora é apenas 0,4% da economia. Na véspera da eleição do dia 9, cresce a sensação de que a nova Espanha deverá provar no teste da adversidade que suas instituições possuem, de fato, solidez para resistir aos ventos contrários.
RUBENS RICUPERO , 70, diretor da Faculdade de Economia da Faap e do Instituto Fernand Braudel de São Paulo, foi secretário-geral da Unctad (Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento) e ministro da Fazenda (governo Itamar Franco). Escreve quinzenalmente, aos domingos, nesta coluna.
Escrito por gilvan.cavalcantidemelo às 13h40
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DEU EM O ESTADO DE S. PAULO (ONTEM)
VIGIAR SEM PUNIR
Fernando Henrique Cardoso
Tomo emprestado, modificando-o, o título de Michel Foucault, assim como poderia ter intitulado este comentário Crime sem castigo, parodiando Dostoievski. Não que eu tenha a pretensão de analisar os fatos com a argúcia filosófica de um ou a dramaticidade estilística do outro. Quero apenas reiterar o óbvio: quanto mais apregoamos a vigência de leis, regras e sanções, na prática, mais as desmoralizamos.
Nesta semana os jornais noticiaram um episódio pouco comum: governo cede e oposição ganha a presidência da mais nova Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI), a dos cartões corporativos. Suspeita-se que houve acordo espúrio. Tudo isso com o pretexto de “preservar” os presidentes Lula e FHC. Eu não tenho a mínima idéia sobre acordo algum. O estranho é que nunca se viu governo patrocinar esse tipo de CPI, até porque todos os documentos pertinentes, deste e dos governos anteriores, estão nas mãos do próprio governo. Bastaria investigar, denunciar, punir e pronto. Além do mais, a instalação de qualquer CPI deve versar, como manda a Constituição, sobre “fato determinado”. Por que essa restrição constitucional? Para evitar justamente a “devassa”, ou seja, a possibilidade de manobra política que tenha como objetivo desmoralizar e não apurar. Ora, no caso em pauta se partiu do abuso no uso dos cartões corporativos no atual governo e da suspeita de mau uso de excessiva soma de dinheiro retirada pelos portadores desses cartões sem nenhum comprovante de despesas. Esses são os fatos concretos, “determinados”, que dão margem à abertura de uma CPI.
Por que, então, ampliar a investigação para alcançar o governo anterior? Haveria, ou há, uma hipótese: se no curso das investigações se viesse a esbarrar com algo errado ocorrido no passado. Não foi o caso, pelo menos até agora. Então por quê? Para politizar as investigações e usar duas táticas: dizer, ameaçadoramente, “olha que eu investigo você também” ou insinuar que os dois governos são “farinha do mesmo saco”. A tática de igualar tudo desmoraliza a política e impede que o eleitor faça uma escolha fundamentada: sendo todos iguais, dá no mesmo votar em qualquer um.
Este o maior risco desta CPI, ou seja, o de jogar todo mundo na vala comum e desmoralizar ainda mais a política, não o risco do cambalacho entre governo e oposição. Até porque o estrelismo parlamentar, os interesses do governo, a competição entre os veículos da mídia tornariam letra morta qualquer acordo uma vez iniciados os trabalhos. Fosse só essa a conseqüência dessa CPI, nos termos em que ela foi proposta, já seria ruim, mas haveria a justificá-la a luta pela maior transparência no uso do dinheiro público. Mesmo que o governo anterior sofresse um arranhão estaríamos revigorando a democracia e a decência. Mas, infelizmente, não é assim. Dificilmente ocorrerão punições, uma vez que nos casos do passado os eventuais delitos estarão prescritos. E, no caso atual, o governo se tem mostrado renitente em aceitar denúncias contra seus membros e retificar condutas, salvo quando obrigado por decisão judicial, geralmente morosa. A CPI poderá resultar em crime sem castigo, se houver comprovação de abusos sem correção ou em castigo sem crime, se nada for apurado e denúncias sem fundamento levarem o povo a pensar que “sempre foi assim”.
Sou pessimista quanto aos efeitos que mais essa onda de escândalos terá para melhorar o desempenho do governo. Ele já usou demais o cachimbo. Mesmo assim, prefiro que a revelação dos fatos prossiga, confiando na máxima “água mole em pedra dura, tanto bate até que fura” e esperançoso em ver a Justiça decidir com maior presteza e empenho. Meu desencanto decorre de episódios conhecidos. A ministra que usou dinheiro público em um free shop, por exemplo, apenas se equivocou, é “boa companheira”, dizem os governantes. Pode até ser, mas nada justifica que se passe a mão em sua cabeça. Nem em preservar o sigilo de gastos em nome da segurança do Estado. Há gastos sigilosos legítimos a serem preservados da luz pública imediata, embora devam ser justificados na instância apropriada. O mau uso de gastos com a segurança, se houver, constitui delito, como qualquer outro abuso do dinheiro público. Seria simplesmente pueril alegar sigilo para proteger gastos realizados, digamos, há mais de 12 meses. Sua publicidade não pode pôr em risco a segurança das pessoas.
Não me surpreendo mais com cinismo algum. Depois que o próprio presidente, assessorado por algum advogado de porta de cadeia, categorizou como “mero” crime eleitoral toda a lambança do mensalão, quem há de? O que me revolta é o clima de que “todos são iguais”. Tal generalização não pode ser aceita passivamente, sob pena de ficarmos sempre a esperar um salvador da pátria, puro e incorruptível (que geralmente se corrompe no poder), pois “os que estão aí” são todos iguais. Na política não há anjos ou demônios, mas há homens públicos de diferentes qualidades morais e estas contam. Podem não contar eleitoralmente, mas contam para a construção de um país mais decente. Somos falíveis, naturalmente, podemos errar. Mas acobertar o que é crime, chamando-o de engano, é incentivá-lo. Desrespeitar a Comissão de Ética do próprio governo chamando suas advertências de “bobagem” é nivelar por baixo, confundindo o justo com o delituoso.
Isso tudo leva à descrença na democracia. Vivemos um paradoxo: o de uma sociedade cada vez mais vigiada (pelos órgãos do Estado, pela mídia, pela internet, etc.) e cada vez menos capaz de distinguir condutas e de punir crimes. Pior, o de uma sociedade cada vez mais indiferente à transgressão, como conseqüência da impunidade. A anomia chegou a tal ponto que denúncias em tribunais estrangeiros sobre propinas dadas a personalidades da administração não provocam sequer a reação retórica do acusado, que nem se dá ao trabalho de dizer: vou processar o caluniador. Enquanto isso o presidente da República, permanentemente no palanque, se dá ao desplante de distorcer e enganar o povo, menosprezando tudo o que foi feito por seus antecessores, apresentando-se como o único político que “ajudou os pobres”, gabando-se da inauguração da casa cujos alicerces e paredes se construíram com sua oposição constante. Cinismo igual a República nunca viu.
Fernando Henrique Cardoso, sociólogo, foi presidente da República
Escrito por gilvan.cavalcantidemelo às 13h32
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DEU NO JORNAL DO BRASIL
A ONU, O BRASIL E AS DESIGUALDADES
Mauro Santayana
Mais uma vez o Brasil é submetido ao constrangimento internacional, em conseqüência das desigualdades internas. Segundo relatório do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos, o país é dos cinco mais iníquos do mundo. O documento fala na morte de adolescentes pela violência, e cita o número de 50 milhões de pessoas vivendo na miséria. Em abril próximo, a situação do Brasil será das primeiras sob exame, no balanço do que se faz do desempenho de 192 países, de acordo com as metas estabelecidas para os primeiros lustros do século.
O país devia envergonhar-se dessa situação, mas isso não ocorre. É melhor orgulhar-se das coisas positivas, como o desempenho da economia, a descoberta de novas fontes energéticas, o astronômico crescimento do valor de mercado de empresas públicas, adquiridas por menos de um por cento de seu valor, no governo passado, como é o caso da Companhia Vale do Rio Doce.
É provável que alguns números estejam superados. A situação dos brasileiros mais pobres tem melhorado, pouco ainda, mas de maneira evidente. Não é o melhor caminho subsidiar a vida das pessoas. Há sempre desconforto moral para quem distribui o dinheiro e para quem o recebe. Quando quem distribui é a sociedade inteira, mediante o Estado, esse constrangimento é menor, de um lado e de outro. Há, sem embargo dessa situação incômoda, resultado moral importante. Grande parte dos beneficiados pelo programa Bolsa Família - entre outros processos distributivos - em lugar de se acomodar, sente-se estimulada a participar da vida produtiva e econômica. O fato de contar pelo menos com a certeza de uma refeição diária impele o beneficiado a buscar as outras que faltam.
O colunista se recorda de uma entrevista com o então governador do Piauí, Petrônio Portela, meses antes do golpe militar de 1964. O futuro presidente da Arena era, naquele encontro de governadores de Araxá, uma das personalidades subversivas, posto que apoiava o governo Jango e suas reformas. Não me esqueço de sua forte declaração contra as injustiças sociais, ao dizer-me que "as mocinhas pobres do sertão têm direito a um vestidinho estampado de chita, para ir à missa aos domingos". Quase 50 anos depois, com o intervalo que conhecemos - e que ele ocupou com esperta utilidade - o que queria Portela começa a ocorrer. Os produtores de tecidos e comerciantes de roupas estão aumentando os seus negócios, onde, antes, era comum um dia de nudez na semana, para a lavagem da única vestimenta dos filhos.
O problema da violência urbana é mais complicado, mas se relaciona, de uma ou outra maneira, com a desigualdade social. Não é preciso repetir o que todos sabem, e sabem há mais de 100 anos. A fome e a miséria empurram as pessoas para onde haja mais gente. Ainda no tempo colonial isso era comum, com as hordas de miseráveis caminhando pelas trilhas do sertão em busca do sul e do litoral. Nas grandes migrações européias, os andarilhos colocavam no alto da cabeça ínfima moeda de cobre, amarravam pedaço de corda ao pescoço, como sinal de submissão, e se ofereciam como servos aos senhores feudais. No Brasil, esses brancos e pardos pobres não tinham essa saída, posto que os latifundiários valiam-se dos escravos. Isso explica, entre outros fatores, o surgimento, o apogeu e a destruição de Canudos.
A sociedade brasileira é injusta, soberba, saudosa do escravismo. Nas últimas décadas, até mesmo entre os pobres, vem desaparecendo a solidariedade que os ajudava a suportar o sofrimento. Da classe média, com a exceção de alguns poucos, que se sentem naturalmente constrangidos com a miséria circundante, pouco a dizer. A situação lhe é cômoda, porque possibilita mão-de-obra barata para as tarefas domésticas. Quanto aos empresários, nada melhor do que essa pressão da miséria. Nos últimos 44 anos, a participação dos salários no PIB caiu dramaticamente. Em compensação, a participação da renda de capital cresceu exponencialmente.
O governo atual pode errar - e erra - em muitas decisões administrativas e políticas. Mas é interessante registrar que seus opositores mais exasperados - como esse resquício oligárquico dos mal chamados "democratas" - atacam-no exatamente no que tem feito de melhor. A enraivecida oposição ao programa Territórios da Cidadania, que prevê uma ação coordenada de todos os ministérios para o desenvolvimento acelerado das regiões mais miseráveis do Brasil é um exemplo disso.
Bons foram os outros tempos, em que a cidadania era direito dos bem nascidos, do voto censitário, em que só a renda de cada um conferia o alistamento eleitoral.
Escrito por gilvan.cavalcantidemelo às 10h11
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DEU NA FOLHA DE S. PAULO
OBAMA, TOCQUEVILLE E A ILUSÃO AMERICANA
Francisco de Oliveira
Obama, com seu terninho correto que faz par com o tailleur de Hillary Clinton, é tão parecido com sua rival quanto o PT com o PSDB
TOCQUEVILLE ESTÁ entre os mais reputados teóricos da democracia, e seu livro clássico sobre a democracia na América em nada se parece com os tratados enfadonhos e formais sobre a forma de governo inventada pelo gregos da época clássica. Trata-se de investigação sobre os fundamentos, eu diria, sociológicos, da democracia nos EUA; nosso Sérgio Buarque de Holanda fez, com o também clássico "Raízes do Brasil", a explicação de por que a forma democrática é quase inviável em Pindorama.
Mais de um século depois, o belicista Churchill cunhou outro paradoxo, plagiando Tocqueville: a democracia é o pior de todos os regimes, salvo todos os outros. O velho leão britânico somente aprenderia a não incentivar guerras coloniais -"remember" a Guerra dos Bôeres- depois que o nazismo ameaçou liquidar a velha Albion e submeter o mundo ocidental a uma nova idade das trevas.
Barack Obama, parece, será o indicado pelos democratas para a disputa da Casa Branca, desbancando a chata da Hillary, coisa que talvez se defina logo no próximo dia 4. Para os leitores de Tocqueville, talvez sua eleição à mansão sem estilo da avenida Pensilvânia pareça realizar os prognósticos do nobre francês. Mas aqui entra o famoso paradoxo de Tocqueville, segundo o qual a ampla democratização torna banal a participação dos cidadãos e desinteressante a democracia.
O forte absenteísmo dos próprios norte-americanos às suas eleições presidenciais confirmaria o pessimismo tocquevilleano. Em termos schmittianos, a democracia de massas é não-agônica, onde não se decide nada. Não falta ao paradoxo de Tocqueville, como é óbvio, um certo desdém aristocrático, que o autor francês disfarça todo o tempo.
Uma crítica de direita se alinharia apressadamente ao paradoxo, desqualificando imediatamente a eleição do primeiro negro à Presidência dos EUA. Uma crítica pela esquerda vê o problema de outro ângulo: o paradoxo de Tocqueville não decorre da banalização da democracia pelo predomínio das massas, mas é um produto da colonização da política pela economia. Em outras palavras, o capitalismo, em sua fase globalitária, torna inútil a política e irrelevante a participação dos cidadãos. Nos EUA, é certo que decisões como a invasão do Iraque foram até mesmo planejadas no Salão Oval, mas antes o celerado Bush filho teve que pedir permissão a Alan Greenspan, o ex-todo-poderoso presidente do Fed; aliás, esse senhor atravessou os dois mandatos de Clinton e entrou pelo mandato de Bush adentro, somente renunciando um ano e meio atrás, e os norte-americanos nunca votaram nele para coisa alguma. E o Senado norte-americano, que ratifica as indicações presidenciais, faz-lhe uma argüição que é tão contestadora quanto os programas de Silvio Santos. Isso é a colonização da política pela economia.
Entre nós, mesmo a própria democratização brasileira, de que o PT foi co-autor importante, é hoje irrelevante: em lugar da transformação prometida pelos longos anos da "invenção democrática", o PT e Lula transformaram-se em fiadores do capitalismo globalitário no Brasil.
Vejam-se, como já se salientou aqui mesmo nesta Folha, os lucros do sistema bancário brasileiro e o tratamento do social: meros R$ 8 bilhões para o Bolsa Família, o ai-jesus de Lula e do lulo-petismo, e R$ 160 bilhões de juros da dívida pública interna. Ou em 2007, os R$ 20 bilhões do lucro dos quatro maiores bancos contra os R$ 21 bilhões de todo o Orçamento social de Lula (incluindo-se seguridade social, Bolsa Família et al).
Tomara que Obama desminta o paradoxo de Tocqueville; tomara que suspenda imediatamente o odioso embargo contra Cuba, aproveitando inclusive a oportunidade da retirada de Fidel da linha de frente do governo cubano; tomara que retire as tropas do Iraque, terminando de vez com esse desastre anunciado; tomara que retome a linha de um Jimmy Carter, não apoiando as ditaduras e o descarado intervencionismo gringo; tomara que inaugure uma linha próxima do New Deal rooseveltiano e detenha o empobrecimento das classes populares norteamericanas e a crescente desigualdade; tomara que um desastre como o Katrina não possa outra vez expor a olho nu a produção desapiedada da pobreza, escondida no charme da outrora francesa Nova Orleans. Tomara. Mas que é improvável, é. Ele é tão parecido com a Hillary, com seu terninho correto que faz par com o tailleur da ex-primeira-dama, quanto o PT com o PSDB. Tocqueville ri na tumba?
FRANCISCO DE OLIVEIRA, 74, é professor titular aposentado do Departamento de Sociologia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP.
Escrito por gilvan.cavalcantidemelo às 10h06
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DEU EM GRAMSCI E O BRASIL
A CIDADE FUTURA
Giorgio Baratta
Tradução: Giovanni Menegoz
Hoje, pensar junto com Gramsci significa não resignar-se, resistir, manter viva a contradição entre 1919 e 1989, entre passado e presente, realidade e imaginação; significa reconquistar um olhar sobre o futuro, sem mitologias nem nostalgias, com a certeza de que o sonho foi sonhado, der Traum ist ausgetraumt, mas também com a vontade e capacidade de manter vivos os rastros daquele sonho, que foi - como qualquer sonho - a realização simbólica de um desejo concreto, uma necessidade real, uma tendência do existente. O fato é que, passada a época de Yalta e do socialismo, primeiro num “só” país, depois cinzentamente “real” - quando o capitalismo volta a marchar no mundo como um tanque de exército, queimando terras ainda virgens ou ricas de tradições -, o cenário internacional, na passagem “entre um século e outro”, parece reproduzir intensamente o clima de há cem anos: a arrogância tecnocrática e positivista é novamente a máscara através do qual se anuncia e se afirma brutalmente o direito do mais forte. Ontem como hoje, o progresso é portador de seu contrário e anuncia retrocessos espantosos, mas também joga para frente as contradições da vida social. A crítica social aguça suas armas. Análise objetiva do real e imaginação cognitiva, juntas, põem em discussão o existente, produzem a visão do possível.
Escrito por gilvan.cavalcantidemelo às 15h19
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COMENTÁRIO
UMA VELHA DISCUSSÃO
Gilvan Cavalcanti
Sob o pretexto de responder ou criticar o artigo de Augusto Franco, ex-dirigente nacional do PT, estou recebendo aulas de política.
Parece-me que o tema em discussão é uma volta ao período da transição da ditadura militar ao regime democrático. È verdade que o autor do artigo combatido estava, no debate dicotômico entre democracia política versus democracia social, naquela época, ao lado da segunda opção, - aliás com todas as tendências ou correntes que vieram a se constituir no Partido dos Trabalhadores. Ou seja, o defeito é de fábrica.
Há uma ampla bibliografia sobre a transição. Quem não se lembra dos ataques à formação da Aliança Democrática (PMDB/PFL/COMUNISTAS DO PCB). Os conceitos usados eram outros. Recordo-me de vários intelectuais de esquerda, não só intelectuais, carimbarem os aliancistas como defensores de uma transição conservadora. Como se pudesse haver democracia adjetivada, parada no tempo e no espaço, sem atores sociais e políticos, sem luta, sem contradição. Isto é, uma concepção positivista que só tem um lado ou outro. Não existe, portanto, o movimento recíproco, a superação. Ou seja, em outras palavras, é a dialética sem síntese.
O que aprendi com algumas opiniões de filiados de partidos de esquerda? Com todo meu respeito, aprendi que o velho, atrasado é mesmo velho, atrasado, É mais: tenta se vestir com uma roupa de grife internacional para esconder o espírito, a consciência de uma antiga visão política, já superada e amplamente criticada. Lá atrás era a dicotomia: democracia burguesa versus democracia proletária. Agora, é substituída por “democracia elitista” versus “democracia de impacto social” ou “democracia de chá das cinco” versus “democracia dos pobres”.
Escrito por gilvan.cavalcantidemelo às 16h14
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DEU NO JORNAL DO BRASIL
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IMPOSTO NO MEIO DO TÚNEL |
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Wilson Figueiredo |
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Antes de sair de cena, depois de 10 anos de presença indesejada, aquela inebriante flor tributária, mais conhecida como CPMF, quis passar de provisória a permanente sem dizer exatamente o que pretendia e, não conseguindo, desligou a luz no fim do interminável túnel em que o Brasil se enfiou. Lula esfregou os olhos e não viu mais do que o horizonte sindical lhe apontava. O ministro da Fazenda se apresentou, mas não entendeu que a hora pedia a verdade, e não a inverdade. Não foi a primeira vez que acreditou fazer paradoxo e apenas deixou o presidente em postura menos digna do cargo.
Em momento inspirado, Talleyrand qualificou como erro, a seu ver mais grave que crime, a autorização dada por Napoleão ao assassínio do herdeiro natural do trono que a Revolução Francesa havia deixado vago. Bonaparte não se livrou das conseqüências do erro ao se tornar imperador. Entrou para a História com vitórias transitórias e a derrota definitiva. Do segundo governo Lula, pode-se dizer que, mais do que um crime (que só existe quando a lei o define), cometeu erro político que não prescreve. O ministro da Fazenda declarou, dias depois, sem corar, que estava de pé a garantia presidencial, dada pessoalmente, de que não criaria nem aumentaria tributos. Mas estava apenas assentada, à espera do último dia de 2007. E Lula estaria livre, no primeiro dia de 2008, para criar ou aumentar tributos no vácuo da CPMF. Ambos, no entanto, ficam devendo melhor explicação até o último dia de qualquer dos mandatos exercidos ou por exercer.
Não está implícito nem escrito que palavra de presidente tem flexibilidade de borracha. Nem é verdade que o presidente tenha combinado com seu ministro o argumento suspeito. Se alguém mente, só pode ser Mantega, que é demissível sem problemas e até com alívio. O ministro podia perfeitamente ter invocado razão esfarrapada para a hipocrisia preparar a homenagem clássica que o vício ofereceria à virtude, com o objetivo de salvar a face do governo. O ministro da Fazenda e o presidente podem ter pensado, mas nada disseram na ocasião. Agora pegou mal. Palavra de presidente comporta apenas um significado, e não mais de um. Ministro é caso à parte, tanto para nomeação como para demissão. Este governo não tem mais, se é que teve antes, convicção do que faz ou deixa de fazer. Não pode é empenhar a palavra e trocá-la por outra, de significado contrário. Boquirrotos sempre falam mais do que precisam e menos do que deviam.
A CPMF morreu de parada cardíaca na mesa de operação e, de agora em diante, seu ectoplasma passa a freqüentar a insônia presidencial. Embora não acredite em feitiçaria, Lula não pode desconhecer a contratação de serviços sobrenaturais, nem acreditar que feiticeiros precisem de carteira assinada e registro oficial para exercer a profissão. O grande argumento que desequilibra a vida política brasileira (em favor de Lula, claro) é que, independentemente dele, o que dá certo, apesar de tudo, pode igualmente dar errado.
O presidente apresenta novos sinais de que se sente predestinado. Pode não saber a que, mas sem dúvida com margem de segurança, para mais e para menos, de três preciosos pontinhos nas pesquisas. O fato é que, de algum tempo para cá, assim como tudo dá certo sem que as explicações convençam igualmente a todos, nada impede que também deixem de dar. Um dia acontece. Ninguém consegue acertar todas. |
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Escrito por gilvan.cavalcantidemelo às 14h23
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DEU NO VALOR ECONÔMICO
SITUAÇÃO DO GOVERNO NAS ELEIÇÕES DE 2010 Por Alberto Carlos Almeida
Pesquisa Datafolha mostra que 50% do eleitorado considera que o governo Lula é bom ou ótimo. Somente 14% dos eleitores o avaliam como ruim ou péssimo. Os demais 36% dizem que o governo é regular. A avaliação do governo varia em virtude da conjuntura. Ela é fortemente influenciada pelo desempenho da economia.
Há um dado, nada conjuntural, que é a simpatia por partido político. No Brasil ela é muito pequena. Porém, destaca-se aí a simpatia pelo PT. Faz anos que as pesquisas mostram que o PT tem a simpatia de 20% a 25% do eleitorado, segundo pesquisa Pesb. A maioria não tem simpatia por partido algum.
Há uma terceira informação, também de grande relevância para a eleição de 2010, que é a abrangência do Bolsa Família. Aproximadamente 25% dos eleitores afirmam receber o programa e algo em torno de 50% dizem que conhecem alguém próximo que recebe o benefício.
Postas essas informações, proponho um exercício. Vamos supor que não haja intercessão entre esses conjuntos. Ou seja, não há superposição entre os 50% que dizem que Lula vem fazendo um governo ótimo ou bom com os 25% que têm simpatia em relação ao PT e também com os 25% que recebem o Bolsa Família. Sabe-se, na prática, que existe alguma superposição, mas ela não é completa. Muitos que recebem os programas sociais do governo o avaliam negativamente. Nem todos os simpatizantes do governo são também simpatizantes do PT e por aí vai. Assim, é uma suposição exagerada, a de ausência completa de intercessão, mas serve ao objetivo deste artigo.
Pois bem, não havendo superposição podemos imaginar, de maneira conservadora, que entre os 50% de ótimo e bom de Lula, 20% acabem votando no candidato do PT em 2010, qualquer que seja o candidato. Entre os 20 a 25% que simpatizam com o PT, 5% ficam com o seu candidato na sucessão de Lula. E, por fim, entre os beneficiários do Bolsa Família, apenas 5% votam no candidato de Lula para que fiquem seguros de que o programa social não correrá riscos.
Somando esses porcentuais, tem-se 30%. O candidato do governo, hoje, depois de razoavelmente conhecido pelo eleitorado, teria 30% de votos. Isso o poria no segundo turno da eleição presidencial. Principalmente se for uma eleição de três candidatos fortes, Ciro Gomes, José Serra e um candidato do PT.
A grande desvantagem do candidato do PT em 2010 é o recall, que será menor do que o nível de lembrança de Ciro (PSB) e de Serra (PSDB). O PT larga atrás na corrida. Não quer dizer que fique atrás o tempo inteiro.
O governo tem musculatura para pôr um candidato desconhecido no segundo turno das eleições de 2010. A musculatura governamental é diversificada, combina várias coisas: aprovação do governo, desempenho da economia, programas sociais, enraizamento social do PT. O ano de 2008 é de eleição municipal, mas em Brasília só se pensa naquilo. E é pensando naquilo que a oposição precisa ficar alerta para o suposto favoritismo de Serra. Há fatores que tornam o candidato do PSDB predileto, mas há razões que tornam o candidato de Lula também favorito. Será uma disputa dura e é por isso que a máquina política montada nos municípios em 2008 é vista como extremamente importante.
Alberto Carlos Almeida, professor universitário e sociólogo, é autor de "A Cabeça do Brasileiro" (Record).
Escrito por gilvan.cavalcantidemelo às 11h50
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DEU NO VALOR ECONÔMICO
MAGISTRADOS FALASTRÕES E A MÍSTICA DO SIGILO Fábio Wanderley Reis
Seja como for que nos disponhamos a respeito de análises técnicas que pretendem apontar a "judicialização da política", não há como deixar de observar o parlapatório ou o ânimo falastrão de magistrados que deveriam distinguir-se antes pela discrição, até por se verem eventualmente chamados, por força dos cargos ocupados, a decidir sobre pleitos relacionados aos assuntos sobre os quais deitam falação a três por dois. O ministro Marco Aurélio Mello é provavelmente o exemplo mais destacado, no qual, ademais, a presteza boquirrota se combina com a ligeireza das manifestações sobre temas complicados e polêmicos.
Vimo-lo há pouco a festejar de público, de maneira surpreendente, a "faca no pescoço" de que outro ministro do STF se queixava de ver exposta a mais alta corte de Justiça do país, em razão da publicidade em que se viu envolvida a recente sessão relativa ao mensalão. Mas o sigilo bancário está certamente entre os seus temas preferidos. Sete anos atrás, em janeiro de 2001, os jornais registravam a "profunda irritação" do governo FHC (veja-se, por exemplo, matéria de Andréia Michael na "Folha de S. Paulo" de 2 de janeiro de 2001) por suas declarações contrárias às modificações propostas na legislação para permitir à Receita Federal agir com mais eficiência contra os sonegadores, consubstanciadas na Lei Complementar 105, de 10 de janeiro daquele ano. Agora o vemos voltar à carga, a propósito das medidas do governo Lula em seguida à perda da CPMF, com o controle da sonegação que permitia.
Um aspecto notável é que a nova manifestação do ministro surge em meio ao que parecia amplo consenso político favorável à CPMF do ponto de vista de seus efeitos anti-sonegação - o que por certo não significa que tais efeitos, bem como as medidas de agora e a própria Lei 105, não contrariem interesses de peso. E creio que o mero senso comum e um pouco de lógica permitem até a um simples leigo, como eu próprio, avaliar com segurança, no debate jurídico, a fragilidade da posição que denuncia o caráter inconstitucional da agilidade concedida à Receita Federal no exercício da atividade de fiscalização.
Sigilo bancário versus faca no pescoço
Eis alguns pontos que breve exame da Constituição e a leitura do comentário de peritos permite ressaltar. Não há na Constituição qualquer norma que garanta expressamente o sigilo bancário, apesar da garantia genérica, no artigo 5º , da inviolabilidade da intimidade e do sigilo de dados. Há, em vez disso, o que dispõe o artigo 174, encarregando o Estado da fiscalização da atividade econômica - "na forma da lei", naturalmente, como corresponde ao recurso à Lei 105. Há, ainda, o que dispõe o artigo 145, § 1º , facultando à administração tributária, para conferir efetividade aos objetivos maiores e ao caráter atribuído pela própria Constituição ao estabelecimento de impostos ("terão caráter pessoal e serão graduados segundo a capacidade econômica do contribuinte"), "identificar, respeitados os direitos individuais e nos termos da lei, o patrimônio, os rendimentos e as atividades econômicas do contribuinte".
Como ponderou há tempos o ministro Francisco Rezek (que cito conforme a útil revisão do tema geral realizada por Olavo Augusto Ferreira em "O Sigilo Bancário e a Autoridade Fiscal", na Revista Jurídica Eletrônica Unicoc), "a vida financeira das empresas e das pessoas naturais não teria mesmo porque enclausurar-se ao conhecimento da autoridade legítima - não a justiça tão-só, mas também o parlamento, o Ministério Público, a administração executiva, já que esta última reclama, pela voz da autoridade fiscal, o inteiro conhecimento do patrimônio, dos rendimentos, dos créditos e débitos até mesmo do mais discreto dos contribuintes assalariados. Não sei a que espécie de interesse serviria a mística do sigilo bancário, a menos que se presumam falsos os dados em registro numa dessas duas órbitas, ou em ambas, e por isso não coincidentes o cadastro fiscal e o cadastro bancário das pessoas e empresas".
Dado o evidente interesse público da fiscalização exercida pela Receita ou pela autoridade fiscal em geral, os fundamentais direitos civis individuais não podem ser tomados senão como relativos, não podendo servir de salvaguarda de práticas ilícitas, como O. A. Ferreira assinala corresponder a manifestações anteriores do próprio STF (aliás, até a propósito de mandados de segurança relatados pelo próprio ministro Marco Aurélio e envolvendo a questão mesma do sigilo bancário). Resta o argumento curioso de que a Receita Federal seria "parte da relação jurídica tributária" e não se caracterizaria, assim, como órgão "eqüidistante". O problema com o argumento é que ele, a rigor, se aplicaria ao Estado em geral, redundando na demanda, considerada brevemente aqui algum tempo atrás, de que o Estado seja "neutro". Ora, se tal demanda teria dificuldade para justificar-se numa perspectiva socialmente sensível, que falaria de direitos sociais e buscaria uma "neutralidade" superior em que justamente a ação estatal viesse ajudar a corrigir ou mitigar desigualdades, ela na verdade embaraça a própria idéia dos fundamentais direitos civis, que também têm no Estado o agente decisivo de sua definição e garantia: poderia o Estado punir delinqüentes que ele próprio define como tal?
Finalmente, cabe indagar se a "mística do sigilo bancário" envolverá a "faca no pescoço" que o ministro Marco Aurélio festeja. A resposta que se insinua sugere mimos antes que facas, tornando vagamente ofensiva ao colegiado do STF sua declaração de que "conhece o Tribunal" e pode sentir-se seguro de que medidas que comprometam de algum modo o sigilo seriam tidas como inconstitucionais.
Fábio Wanderley Reis é cientista político e professor emérito da Universidade Federal de Minas Gerais. Escreve às segundas-feiras
Escrito por gilvan.cavalcantidemelo às 11h36
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O ESTADO DE S. PAULO - EDITORIAL
O FRACASSO DE CHÁVEZ
O espetáculo midiático montado pelo presidente Hugo Chávez em torno da vaga promessa das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) de libertar três reféns só poderia terminar em fiasco. O caudilho venezuelano, que havia sido exonerado pelo presidente Álvaro Uribe das funções de mediador do conflito colombiano, quando exorbitou de suas atribuições, não é a raposa política que a sua máquina de propaganda pinta. Chávez acreditou piamente na oferta de libertação dos três reféns, que as Farc apresentaram como um ato de “desagravo” a ele, por ter sido dispensado abruptamente por Uribe. E montou uma espalhafatosa operação para acolher as vítimas da narcoguerrilha, que só seriam entregues ao governo venezuelano, por exigência da liderança das Farc. O presidente Álvaro Uribe permitiu o uso de solo colombiano para a operação dirigida por Chávez e passou, apenas, a observar os acontecimentos a distância.
O caudilho dirigiu, soberano, o espetáculo. São inesquecíveis as cenas, transmitidas pela televisão, do presidente Hugo Chávez, vestido com uniforme militar de campanha, explicando a jornalistas e representantes de países vizinhos, França e Suíça - convocados para testemunhar o triunfo do caudilho - como seria feita a entrega dos reféns. Debruçado sobre um mapa, nele traçou as rotas que seriam seguidas pelos helicópteros venezuelanos. Seus minutos de fama como grande estadista e estrategista militar esvaíram-se rapidamente.
As Farc não entregaram suas vítimas e o circo foi desarmado melancolicamente.
As Farc, em mais de 40 anos de existência, jamais cumpriram um acordo. Só se dispõem a algum tipo de negociação quando estão em grande desvantagem no campo militar e precisam ganhar tempo para recompor forças. Hugo Chávez sustenta que as Farc não são um grupo terrorista que sobrevive com os rendimentos do narcotráfico, do seqüestro e da extorsão. “Acredito que as Farc têm um projeto político”, diz ele.
De fato, têm. Originalmente, tinham um projeto maoísta. Agora, têm um projeto que, se for bem-sucedido, reduzirá a Colômbia a um centro produtor de drogas, dirigido por um bando reacionário e feroz. Mas os líderes das Farc não abandonam a retórica marxista - e isso faz sucesso em alguns círculos, na América Latina e na Europa. Também não fazem concessões de espécie alguma - o que significa que não negociam de boa-fé. Não foi à toa que, antes de Álvaro Uribe, fracassaram nas tentativas de negociação com o grupo os governos de Belisario Betancur, Virgilio Barco, César Gaviria, Ernesto Samper e Andrés Pastrana. Há duas décadas, um processo de pacificação levou todos os grupos guerrilheiros colombianos para a legalidade, exceto as Farc, que repeliram a oportunidade. Também se frustraram tentativas de negociação feitas por outros países, individualmente ou em grupo, agências multilaterais, como a ONU, e ONGs com atuação internacional.
A médio prazo, o objetivo das Farc é o reconhecimento, pela comunidade internacional, do estado de beligerância. Com isso, o grupo poderia obter reconhecimento oficial por alguns governos estrangeiros e obrigar o governo colombiano, em última análise, a uma forma de governo compartilhado. Foi com esse objetivo que as Farc iludiram o presidente Andrés Pastrana com promessas de pacificação que o levaram a entregar aos narcoguerrilheiros 42 mil km² de território colombiano durante três anos e meio. Foi com esse objetivo que as Farc ofereceram entregar três reféns, num espetáculo que teria a participação de um presidente da República, Hugo Chávez, do ex-presidente Néstor Kirchner e de representantes oficiais de mais seis países.
A opinião pública mundial se condói com a situação dos três reféns. Mas é preciso considerar que as Farc mantêm em cativeiro cerca de 700 pessoas, algumas há dez anos. Durante esta década, elas seqüestraram 6.123 pessoas. Recentemente, executaram 21 deputados estaduais que haviam capturado.
As Farc não querem negociar. Querem que o Estado colombiano se renda incondicionalmente. Mas os colombianos não apóiam o programa revolucionário das Farc. Segundo o Gallup, há uma rejeição de 93% contra apenas 1% de apoio. São esses os fatos que governos como o do Brasil precisam considerar, antes de embarcar em aventuras espalhafatosas, como a liderada por Hugo Chávez na semana passada.
Escrito por gilvan.cavalcantidemelo às 14h34
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CORREIO BRAZILIENSE: FHC
CONVERGÊNCIAS E ESTRATÉGIAS
Fernando Henrique Cardoso Sociólogo
A história recente mostrou que os países que conseguiram “dar um salto” atenderam ao mesmo tempo aos desafios dos mercados globalizados e às necessidades das populações locais. Fizeram isso quando foram capazes de definir o futuro sem medi-lo pelo calendário eleitoral e produziram um relativo consenso sobre metas de, pelo menos, médio prazo. Assim foi com a China, cujo calendário é medido por gerações e cujos mecanismos de convergência dispensam a representação política democrática, mas não algum tipo de participação ampliada nas decisões. No mundo ocidental, onde prevalecem as regras de representação democrática e a soberania do voto popular, mesmo sem uniformidade de visões, criam-se valores e mecanismos para que a alternância de poder respeite certo grau de continuidade nos objetivos nacionais pactuados implícita ou explicitamente. Tal foi o caso da Espanha, bem como, em outras circunstâncias, do Chile.
No Brasil, de forma esdrúxula, partidos que se guerreiam politicamente, como o PSDB e o PT, não têm impedido que a sociedade venha formando, pouco a pouco, um certo consenso. Não será o momento, neste início de ano-novo, para uma reflexão política mais madura, que aclare os caminhos possíveis e desejáveis que, sem eliminar as discrepâncias políticas no que elas têm de efetivo, diminuam a retórica que atrapalha a percepção das alternativas e a definição das metas?
A primeira grande questão que se coloca, do ângulo dos desafios da globalização, é a de definir como enfrentar a presença crescente da China e das demais economias emergentes. A China nos tem prestado enorme auxílio com o aumento dos preços internacionais das matérias-primas e alimentos que o seu crescimento acelerado provoca. Sem ele nossas contas externas não mostrariam a saúde atual. Porém, ela nos desafiará cada vez mais com uma oferta crescente de produtos manufaturados, não apenas os de baixo custo, nos quais é imbatível, mas também os de maior sofisticação tecnológica, para o que está se preparando. Pior ainda, o efeito positivo do aumento das exportações de commodities colabora para a valorização do real, o que dificulta a exportação de manufaturas. O Brasil não deve renunciar ao que conseguiu a duras penas: sua base industrial. Para aprimorá-la e ampliá-la, precisará de muita inovação e de muita agregação de valor aos novos produtos. Estamos desafiados, portanto, a fazer na indústria o que fizemos na agricultura e na mineração, o desenvolvimento de novas tecnologias e da capacidade empresarial.
Se for assim, a meta correlata há de ser a de definir as áreas estratégicas em que devemos nos concentrar para, em seguida, avançar mais no desenvolvimento científico-tecnológico. A área mais óbvia parece ser a da energia, dada a disponibilidade de terras e de tecnologia para a produção do etanol e dos biocombustíveis e dadas as reservas disponíveis para o aumento da exploração do petróleo e do gás. Essas atividades permitem e requerem a expansão da base industrial, desde a implantação da indústria álcool-química até à produção de equipamentos. Mas não é a única área. Temos à disposição gente e cérebro para avançarmos na informática, na microeletrônica, na nano-tecnologia e assim por diante, sem esquecer os produtos sofisticados que podem ser resultantes do uso racional da biomassa, à condição de respeitarmos o meio ambiente e aplicarmos políticas mais vigorosas em sua preservação.
Não é possível ser exaustivo. Bastam os exemplos acima para ver que, se nosso futuro depende de escolhas sobre as áreas econômicas em que devemos nos concentrar, ele só estará de fato a nosso alcance se fizermos concomitantemente uma revolução educacional. Não será esse um terreno para que os partidos e a sociedade se articulem para discutir como financiar o salto à frente educacional, quem sabe com recursos provenientes da exploração do grande manancial petrolífero que se anuncia? E para definir que medidas práticas tomar para gerenciar a educação, formar mais e melhores professores e pagá-los melhor?
Por falar em financiamento de longo prazo, todos sabemos que a crise fiscal do estado não poderá ser superada sem a contenção dos gastos correntes, puxados por despesas (e déficits) cada vez maiores da Previdência Social e pela expansão indiscriminada da máquina pública. Não haveria possibilidade de acordo nessa área? E a tão ansiada reforma tributária, se vista com menos ambição e maior objetividade, não poderia, de fato, ser objeto de negociações maduras entre partidos, governos e sociedade para lográ-la, digamos, no decorrer deste ano? E não será possível uma definição adequada do papel das agências reguladoras — condição indispensável para desatar o nó da infra-estrutura —, evitando-se o doutrinarismo e seu aparelhamento para servir aos partidos?
E será, santo Deus, que não clama aos dirigentes do país que os escândalos seguidos e a corrupção impune minam a confiança no Estado e no governo e terminam por deitar ladeira abaixo as expectativas e a confiança da sociedade no futuro do país? Não poderemos aproveitar o bom momento da economia mundial e nacional para aumentar os controles nos desatinos, na roubalheira e na corrupção política? Será impossível modificar as regras eleitorais e a legislação partidária com vistas a aumentar a responsabilidade dos eleitos frente aos eleitores e de ampliar os canais de participação sem pretender substituir a democracia representativa pela manipulação eleitoral plebiscitária das massas? E não será o momento para acelerar as modificações nas regras do processo civil e nos códigos de execução penal para que a cidadania se sinta mais segura e de fato protegida pela lei, que passará a valer para todos? Não se fará tudo isso em só um ano. Mas o roteiro do futuro pode ser delineado.
Quem sabe seja otimismo de ano-novo. Mas, se os responsáveis pela condução da vida pública, a começar pelo presidente, incluindo os dirigentes da oposição, em vez de nos aferrarmos à retórica e às picuinhas, olharmos para frente sem desprezar o passado que construímos, talvez haja esperança. A iniciativa está, portanto, com os que foram eleitos para governar o país e não apenas para se vangloriarem do já feito, pois ainda há muito por fazer.
Escrito por gilvan.cavalcantidemelo às 14h28
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COLUNISTA DE O GLOBO
FARSA DESMONTADA
Merval Pereira
Com a confirmação de que é mesmo Emmanuel o menino que está em um orfanato oficial em Bogotá, fica desmascarada a farsa montada pelas Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), que mais uma vez anunciaram uma negociação para soltar reféns e não cumpriram os acordos. Não deveria ser surpresa para ninguém, pois o histórico da narcoguerrilha é de não ter compromissos, jogando politicamente com a vida dos seus reféns. Mas, assumindo como uma operação institucional o que não passava de uma farsa, e sobretudo tratando o grupo guerrilheiro como uma força política legal, o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, procurava ao mesmo tempo desmoralizar o presidente colombiano, Alvaro Uribe, e fortalecer-se como um canal de negociação eficiente diante da França.
O problema, para Chávez, é que as Farc mostraram-se um aliado não confiável, o que aumenta o seu desgaste internacional. Na ânsia de se sobressair no episódio, Chávez mudou até mesmo o nome da operação, batizando-a de "Emmanuel", quando as Farc já sabiam que o menino não estava mais em seu poder. Pode ser que tenha feito isso sem combinar com os guerrilheiros, no seu estilo fanfarrão. Sabe-se agora que os guerrilheiros tentaram recuperar o menino no orfanato, o que não conseguiram.
A farsa guerrilheira começou a ser desmontada quando um comunicado das Farc "advertiu" para a possibilidade de o exame de DNA ser falsificado por especialistas americanos. Era óbvio, mesmo antes dos exames, que o pequeno Emmanuel estava em Bogotá, pois caso contrário a guerrilha poderia divulgar uma foto dele com a mãe e acabar com a controvérsia. Agora, as Farc admitem que a criança é realmente Emmanuel e partem para acusar a Colômbia de tê-lo seqüestrado para inviabilizar a libertação dos reféns. Um samba do crioulo doido nas selvas colombianas, coadjuvado por um fanfarrão como Chávez.
Que o governo francês tenha participado do que se revelou uma aventura é natural, pois está em jogo a vida de uma cidadã francesa, a senadora Ingrid Betancourt. Mas é indesculpável que o Brasil tenha embarcado nessa aventura chavista. Francisco Carlos Teixeira, professor de História Contemporânea da UFRJ, destaca que "isto mostra como o Brasil não tem um serviço de inteligência, no sentido de informação qualificada. A Agência Brasileira de Informações (Abin) não poderia ter permitido que um alto funcionário do governo brasileiro se envolvesse nisso sem uma informação prévia de qualidade".
Para Francisco Carlos, a Abin falhou enormemente, em dois sentidos. "Não tinha uma inteligência autônoma na Venezuela e na Colômbia, e fracassou em obter dos amigos americanos um aviso qualquer nessa direção". Como a Abin é muito próxima das agências americanas e a Colômbia já sabia que o menino provavelmente não estava mais com os guerrilheiros, uma informação sobre esta forte possibilidade poderia ter sido conseguida. Mesmo em Vila Vicenzio, o presidente colombiano Uribe telefonou várias vezes para o presidente americano, George W. Bush, que estava acompanhando tudo, em pânico de que Chávez tivesse êxito nesse jogo de relações públicas no 31 de dezembro.
O histórico das negociações das Farc é vasto em frustrações desde 2002, quando foi seqüestrada a senadora colombiana Ingrid Betancourt, que também tem a nacionalidade francesa (seu primeiro marido é francês e seus filhos nasceram na França). Naquele ano houve várias tentativas de acordo com apoio da França, inclusive a desmilitarização, em dezembro, de três áreas (departamentos), a mesma exigência que está sendo feita agora. Negociadores da guerrilha chegaram a firmar com o governo francês um acordo e um avião francês pousou em Manaus numa operação secreta para o resgate, que não se consumou.
A mesma situação se repetiu em 2004, quando o governo Uribe libertou vários guerrilheiros, as negociações para a libertação de Ingrid Betancourt continuaram até o final de 2005 e até uma comissão foi formada por representantes dos governos da França, Espanha e Suíça. No início de 2006, as Farc romperam as negociações alegando que elas só serviriam para fortalecer a candidatura à reeleição de Alvaro Uribe, que de fato foi reeleito em maio daquele ano.
No mês seguinte, o renovado governo colombiano libertou cerca de 120 guerrilheiros, entre eles o chamado "chanceler" das Farc, Rodrigo Granda, e propôs negociações de paz, recusadas pelos narcoguerrilheiros, que em 17 de agosto apontaram o presidente da Venezuela e aliado Hugo Chávez como negociador confiável.
O fracasso das tratativas fará com que a situação de confronto se agrave, e o anúncio de uma ofensiva da guerrilha corresponde a essa necessidade de enfraquecer o governo de Alvaro Uribe, fortalecido pelos últimos acontecimentos.
As Farc têm um exército de 12 mil homens bem armados e treinados e, para o professor Francisco Carlos Teixeira, não corresponde à realidade a informação de que a guerrilha estaria enfraquecida, tendo perdido grande número de participantes nos últimos anos. Uma prova seria que o Exército colombiano não quis fazer nenhuma ofensiva de grande envergadura até agora, temendo uma derrota em um confronto direto, o que seria uma derrota do Estado colombiano.
Há também, como dificuldade adicional para uma ação mais direta, o fato de que a guerrilha está envolvida por populações civis nos territórios ocupados e de que haveria um banho de sangue inevitável. Mais eficiente do que um confronto direto é uma ação de desmoralização das Farc, o que ocorre sempre que desastradas operações, como a da semana passada, são montadas. Seria bom que o governo brasileiro se acautelasse nas próximas aventuras chavistas. O "annus horribilis" de Chávez não acaba nunca.
Escrito por gilvan.cavalcantidemelo às 14h20
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O ESTADO DE S. PAULO -CADERNO ALIÁS
BREVE ENSAIO SOBRE A MENTIRA
Roberto Romano*
Ao elevar tributos para compensar o fim da CPMF, o governo age como se fosse seu o monopólio da verdade
“É útil enganar o povo?”
(Pergunta do rei Frederico 2º à Academia de Berlim, que dela fez o tema de um concurso público em 1778)
Nos EUA existe um serviço oficial para fiscalizar a aplicação das leis e a obediência do governo à fé pública. Trata-se do GAO (Government Accountability Office). Ninguém afirma que naquela federação a palavra dos governantes segue padrões perfeitos, mas o princípio é mantido. No Brasil não existe nada semelhante, e a maioria dos políticos - sobretudo os que deixam a oposição e se instalam no poder - nem sequer imagina o significado da palavra empenhada. A prática usual é deixar de lado compromissos solenes tendo em vista interesses eleitorais e outros menos confessáveis.
Em nossa terra, a responsabilidade ética na administração é anulada pela propaganda política, pessoal ou partidária, e as instituições tornam-se meros instrumentos dos governantes. Aqui, autoridades dizem qualquer coisa que lhes permita vencer crises ou agradar a setores sociais. Elas afirmam algo hoje, e amanhã (literalmente, como no caso dos impostos agora aumentados), anunciam o contrário. Só existe fé pública se governantes e cidadãos acreditam sinceramente no Estado de direito. Recordemos o que diz a lógica sobre tal assunto de natureza ética. A sinceridade, afirma John Austin, é pressuposta na comunicação democrática (“How to do things with words”). Austin fala em “atos infortunados” para marcar os abusos da insinceridade: aconselhar com alvo torpe, culpabilizar o inocente, prometer e não querer cumprir, dessa fonte nasce a mentira. A grande definição da fala mendaz vem de Santo Agostinho : “Dizer o contrário do que se pensa, com intento de enganar”.
Os partícipes da linguagem, como os que se dispõem a jogar xadrez, devem ter o intento efetivo de jogar… xadrez, não dominó. Dizer o contrário do que se pensa significa manipular: eu minto, mas “eles” não podem perceber. Descoberta, a mentira deve recorrer a razões escusas. A verdade não precisa se desculpar. Se a política, como tudo na vida, é jogo regrado, trapaceiam os políticos que não respeitam as regras da accountability. E a trapaça não constrói um Estado democrático, porque neste último a palavra empenhada é a essência da política, ao contrario dos regimes ditatoriais.
A mentira torna-se mais danosa quando a competência linguística é assimétrica. No regime político contrário à liberdade, a licença para mentir permite considerar desiguais governantes e governados. O máximo dessa desigualdade ocorreu nos totalitarismos nazista e comunista. O Diário Oficial soviético chamava-se Pravda (Verdade), mas raramente alguma frase verdadeira surgia em suas páginas. Montaigne definiu a mentira como “valentia diante de Deus e covardia diante dos homens”. A sua essência é a dominação tirânica, pois a cidadania não consegue recusar ou mesmo detectar o engodo. Fé pública e verdade são os esteios dos deveres, das leis, dos contratos. Por antítese conhecida na Novilingua (exposta por George Orwell e na qual guerra é paz, ódio é amor, etc.), os totalitarismos “nunca reivindicaram a si mesmos como prováveis, mas como verdadeiros”, lembra Angela Valcárcel, em El Discurso de la Mentira (Madri, Alianza, 1988). O poder mentiroso se caracteriza por reivindicar para si mesmo o monopólio da verdade. É por semelhantes razões que o mundo político brasileiro começa mal o ano de 2008.
O Executivo federal não respeitou acordos com a oposição e deixou os contribuintes indignados com o ardil, para conseguir a DRU, de prometer não aumentar impostos. Ao proclamar que não aumentaria tributos devido à perda da CPMF, o governo disse “o contrário do que se pensava, com intento de enganar”. Como as instituições civis dependem da confiança (isto é verdade no mercado, em vínculos financeiros, na indústria, nas relações familiares, culturais ou esportivas, etc.), quando os administradores do Estado não se comprometem com o que falam, semeiam desconfiança geral. Eles conseguem algum proveito com suas espertezas, mas os ganhos resultam na corrosão da fé pública, único sustento do Estado de direito. A lei é um complexo conjunto de palavras, cuja primeira virtude é ser aplicada universalmente. Quanto mais uma sociedade política respeita a fala dos seus legisladores e dos que executam os mandamentos soberanos, mais confiável ela é para quem a sustenta com impostos e a ela confia riquezas materiais e humanas.
Ao não cumprir sua palavra, o Executivo federal subverte o Estado. Também grave é o espetáculo oferecido por muitas Câmaras Municipais de São Paulo, onde foram aprovados aumentos que chegam a 179% nos salários de vereadores, prefeitos, vice-prefeitos e secretários municipais. Sempre é possível desculpar o executor das leis com argumentos plausíveis ou não. Mas os que produzem a norma legal são indesculpáveis se dilapidam os cofres e a fé pública. Nada mais eficaz para conseguir esse fim do que elevar os próprios vencimentos acima de qualquer medida ética. A mentira gera corrupção ampla quando ocorre assimetria de poderes entre os que mentem e os enganados. No Brasil e em São Paulo, políticos em demasia usam o poder apenas para alimentar o próprio bolso. E parolam para justificar o injustificável. “Deus não precisa da minha mentira”, este é o antídoto indicado por Santo Agostinho contra a língua mendaz. Que os poderosos inimigos da ética nos poupem suas desculpas, pois elas insultam a inteligência dos contribuintes. Para terminar: muitos intelectuais improbos responderam positivamente ao rei Frederico e defenderam teses sobre a utilidade de enganar o povo. Não sabemos se receberam o prêmio merecido.
*Roberto Romano é professor titular do Departamento de Filosofia do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da UNICAMP
Escrito por gilvan.cavalcantidemelo às 14h13
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COLUNISTA DA FOLHA DE S. PAULO
PRA FRENTE, BRASIL
Carlos Heitor Cony:
Impossível não comentar o primeiro escândalo do ano. Não tenho condições para analisar o pacote baixado na última quarta-feira, aumentando impostos para cobrir a arrecadação da CPMF, que não foi prorrogada. Nada entendo de economia e de tributação, dou de barato que as medidas tomadas são necessárias e em proporção adequada.
Contudo não preciso entender de números e verbas para lamentar a flagrante quebra de credibilidade do presidente da República. No mesmo momento em que o governo enfrentou sua pior derrota política, sem conseguir a prorrogação de um imposto que, por natureza, era provisório, Lula garantiu que não haveria aumento de impostos e que não baixaria pacotes, recurso que atribuiu a regimes totalitários.
Três semanas depois, baixou pacote e aumentou tributos. A desculpa esfarrapada que seu ministro da Fazenda arranjou foi cínica. A promessa só valia para os dias que faltavam para 2007 terminar. Ano novo, vida e impostos novos e a velha mania de baixar pacotes. A ênfase com que o presidente negou as novas medidas foi a mesma que garantiu sua ignorância dos recentes escândalos, principalmente do mensalão. Ele não sabia de nada. Nem ficou sabendo, apesar da gritaria nacional, que ainda não acabou.
Outra afirmação habitual do presidente é que ele não será candidato a um possível terceiro mandato. Que não é hora para emendas constitucionais. Que não moverá um dedo para ficar no poder. Nem que o mundo caia sobre ele.
Poderá alegar que a afirmação foi feita para o ano velho, para uma realidade extinta. Estamos em 2008, as exigências da continuidade administrativa superam os escrúpulos de uma Constituição feita no século passado, em 1988. Para a frente é que o Brasil deve andar.
Escrito por gilvan.cavalcantidemelo às 14h03
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